O vírus do treinador de bancada

Meses antes de se tornar treinador do Santos, o português Jesualdo Ferreira disse que "o campeonato brasileiro é o pior do mundo".

Normalmente, os protagonistas refugiam-se no batido "fui mal interpretado" para se desculparem de frases de que se arrependem mais tarde. Mas neste caso, Jesualdo tem razão de queixa: o que ele disse é que o Brasileirão é o pior campeonato do mundo na perspetiva do treinador - afinal, como em nenhum outro lugar do planeta se despedem tantos profissionais como no Brasil.

Aos números.

No último dezembro, 26 clubes das elites de cada estado mudaram o comando técnico das suas equipas.

Só na noite de 27 de setembro de 2019, quatro clubes da Série A (a primeira divisão) despediram os seus treinadores - um quinto do total de 20 equipas do campeonato.

Num comparativo mundial realizado anos antes - 2014 e 2015 - constatou-se que nas grandes ligas do mundo, ninguém troca tanto de técnico como o Brasil. Enquanto apenas 25% dos clubes franceses, 40% dos clubes ingleses, 50% dos clubes espanhóis, 56% dos clubes alemães e 65% dos clubes italianos trocavam de treinador, na Série A brasileira 90% procederam a alterações.

Em época de pandemia e quarentena, em que a bola só rola em meia dúzia de campeonatos obscuros de países com regimes autoritários, qual a razão de se falar aqui em futebol?

Porque à hora em que ler este texto, o presidente deste grande clube chamado República do Brasil já pode ter demitido, na fase mais decisiva de um campeonato em forma de pandemia e com um rival perigosíssimo como o Covid-19 a pressionar, o treinador principal do ministério da saúde, o ministro Luiz Henrique Mandetta.

E se não demitiu, das duas uma: ou é porque já nem tem poder para tanto na direção do clube, leia-se governo, ou porque quer dar um drible na imprensa, há dias consecutivos a anunciar o despedimento.

Os motivos para a demissão de um ministro a meio da combate são os mesmos que levam à queda de tantos treinadores a meio de uma prova - o presidente do clube acha que sabe mais do assunto em causa do que um técnico (Mandetta é médico) que se preparou toda a vida para o cargo.

Como o voluntarista Sousa Cintra ao mandar embora, algures em meados da década de 90, o conceituado treinador Bobby Robson, quando o Sporting liderava o campeonato, para dar um exemplo para o leitor português se situar.

É o senso comum, pior, é a lógica do papo de botequim a sobrepor-se ao conhecimento técnico. Bolsonaro acredita que o ponta-de-lança cloroquina, apesar de todos os olheiros sérios do mundo dizerem o contrário, é o ideal para liderar o ataque ao adversário. Mais: como leigo que é, acha que a equipa deve jogar com 11 atacantes, sem guarda-redes nem defesa, isto é, sem isolamento social nem lockdown.

Os médicos, segundo as sondagens eleitores em peso de Bolsonaro na eleição de 2018, sofrem agora na pele aquilo que os treinadores de futebol enfrentam desde os primórdios do jogo: um exército de treinadores de bancada a vomitar, em alarves cânticos grupais, teorias imbecis que contestam o trabalho técnico de profissionais.

Com a devida licença pelo juízo em causa própria, um problema a que outra classe, a dos jornalistas, também já se habituou: ouvir sentenças de analfabetos funcionais nas redes sociais a acusar órgãos centenários de "mau jornalismo", de "viés partidário", de "interesses comerciais", de "conluio com a corrupção" no exercício da sua profissão.

Mesmo tendo sido nas redações de jornais que se descobriram nove em cada dez escândalos no Brasil, como o do "Mensalão" - o atual presidente, deputado à época do episódio, não viu nada, não ouviu nada, não denunciou nada? E sabendo-se que, sem o apoio colossal da imprensa, a Operação Lava Jato não teria saído dos limites de Curitiba.

Voltando ao início: a maioria dos estudos sérios sobre mudanças de treinador conclui que esse expediente não resulta e é até contraproducente na maioria das vezes.

No final das contas, a prazo, mudar o presidente do clube é que é a melhor solução.

Correspondente em São Paulo

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