O candidato insuflável

Por enquanto, à metade do Brasil que é anti-Lula nas eleições de outubro só resta isso mesmo: ser anti. Porque não tem nenhum candidato para apoiar.

Jair Bolsonaro? O deputado-militar adoraria ser o representante dos anti-Lula, até cresceu nas sondagens graças a esse epíteto, mas, sem densidade política nem projeto económico, e com um discurso medieval nos costumes, faltam-lhe qualificações para conquistar o centro.

Luciano Huck? Popular, a estrela da Globo estava a ganhar densidade como candidato mas entretanto desistiu, depois desistiu de desistir e agora desistiu de desistir de desistir. Está fora da corrida de vez.

Michel Temer? Por mais absurdo que possa parecer, o presidente pondera, sim, concorrer às eleições mas impôs-se como meta chegar aos dois dígitos nas sondagens até finais de março (daí a decisão populista de colocar o exército nas ruas do Rio), o que por ora soa a fantasia - a não ser que ele considere 0,0% dois dígitos. Não tem força eleitoral.

Ainda há Geraldo Alckmin, o candidato oficial do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Henrique Meirelles e Rodrigo Maia, as duas alternativas dentro do quadro do atual governo, que também não decolam nas pesquisas. Marina Silva, a ambientalista que nasceu miserável e foi ministra do Partido dos Trabalhadores (PT), até vem subindo devagarinho mas tem mais perfil, convenhamos, para versão feminina de Lula do que para anti-Lula.

Entretanto, a metade do Brasil que apoia a candidatura de Lula tem um candidato que lidera nos cenários propostos pelas sondagens de primeira e de segunda voltas; uma causa, clamar a inocência do chefe às mãos de uma justiça injusta, ou pelo menos bradar que há outros muito mais culpados do que ele à solta, alguns até a passearem-se nos corredores do Planalto e do Congresso; e um slogan, "é golpe".

Faz-lhe falta, no entanto, um antagonista de carne e osso. E rosto. A justiça não é gente. Os mercados, embora fiquem agitados, nervosos, tensos e eufóricos segundo a imprensa da especialidade, também não. E os golpistas, de acordo com o discurso oficial, são tantos e tão dispersos, que acabam por formar um Frankenstein com a testa de Temer, as orelhas de Aécio, a boca de Cunha, o queixo de Moro, etc.

Em ditadura, o PT de Lula cresceu na contestação ao regime militar, cujo rosto, claro e definido, era o do general de serviço no Planalto. Em democracia, consolidou-se sendo oposição aos sucessivos governos, todos eles com presidente de carne e osso. No poder, fez do PSDB, através das caras dos seus respetivos líderes, o inimigo de todas as ocasiões.

Ou seja, como a metade anti-Lula não tem ainda protagonista para enfrentar o velho metalúrgico, o que é desesperador, por causa disso os pró-Lula não têm um rosto de carne e osso para chamar de antagonista, o que também é desesperador. A uns e outros resta, pois, o cliché definitivo dos desesperados: bonecas insufláveis.

No caso, um boneco, o Pixuleco, que, com 13 metros de altura e representando Lula vestido de presidiário, se destaca desde 2015 nas manifestações contra Dilma Rousseff e o antigo presidente.

O PT já declarou - sem se rir - guerra ao boneco. "Que eles sejam devidamente despedaçados", determinou, em declarações ao jornal Folha de S. Paulo, o secretário de comunicação do PT, Carlos Árabe. O rival insuflável do lulismo já foi mesmo esfaqueado cerca de 40 vezes e atacado com uma bomba caseira ao longo da sua mediática existência.

Do outro lado, os criadores do Pixuleco lutam em tribunal contra falsificações, planeiam versões de pelúcia e já estão a ultimar um que diz "tríplex" sempre que apertado. Órfãos de lideranças populares nas manifestações contra o PT, já que os protagonistas do seu campo também estão quase todos enterrados até ao pescoço em suspeitas de corrupção, resta-lhe apostar tudo no político insuflável. Até já registaram há três meses os direitos de autor sobre o boneco na Biblioteca Nacional.

Só falta registá-lo como candidato presidencial no Tribunal Superior Eleitoral contra Lula - resolvia-se o problema de toda a gente.

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