Mensagem numa garrafa

No dia 21 de março de 1990, a embarcação soviética BMRT Andrus Johani fazia uma expedição científica para reunir informações sobre peixes e lulas algures ao largo da costa sul do Brasil, não muito longe de Montevideu, onde fora reparada.

Entre a tripulação estava o capitão Victor Adrianovich Iudin que festejou nesse dia o seu 51º aniversário, regado a vodca, com um grupo de amigos marinheiros.

Naquela semana, pela primeira vez desde 1961, o povo elegera um presidente no Brasil.

Fernando Collor de Mello, representando a direita mais reacionária e intolerante, vencera as eleições, sob o epíteto de "caçador de marajás", isto é, sob um discurso de combate à corrupção na esfera pública.

Derrotara Lula da Silva, o sindicalista de barba mal cortada e camisa fora das calças que assustava a classe empresarial - com medo do país se tornar uma nova Cuba -, que perdera o debate com o futuro vencedor, editado pela TV Globo para o prejudicar, e que fora penalizado pelo envolvimento, jamais provado, do seu partido no sequestro de um empresário na véspera da eleição.

Iudin, cidadão de Kaliningrado hoje com 80 anos, e os amigos beberrões foram notícia tantos anos depois daquele aniversário de 21 de março de 1990 pelo singelo facto de ter sido encontrada nas areias da praia do Hermenegildo, no extremo sul do Brasil, uma mensagem deles numa garrafa, ao jeito do épico japonês O Conto dos Heike, dos textos de Poe e de Dickens ou da música dos The Police, "endereçada a quem não tiver preguiça de a pescar".

"Esta garrafa foi tomada a despeito de todas as ordens do Ministério da Pesca e do governo por marinheiros de verdade no dia 21 de março de 1990 (...) no dia da celebração do aniversário do emérito capitão dos mares V. A. Iudin", continua a missiva, aludindo a uma proibição de bebidas alcoólicas decretada naqueles dias por Mikhail Gorbatchov.

"Àquele que a encontrar, peço para informar hora e local da descoberta e da leitura para a morada Ulitsa Dmitri Donskoi, Kaliningrado", finaliza.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, foram estudantes universitários em acampamento naquela praia que descobriram o objeto. O documento, porém, de tão húmido estava ilegível - e, por estar em cirílico, ilegível continuou, mesmo seco, até professores universitários especializados em cultura russa efetuarem a tradução.

Durante os 30 anos que mediaram a redação da carta pelos marinheiros russos e a sua descoberta pelos universitários brasileiros aconteceu de tudo na política brasileira, de dramas a mortes, de acidentes a atentados, de golpes palacianos a conspirações, de operações policiais a prisões histriónicas.

Mas em três décadas tudo que a direita brasileira fez foi refinar o seu reacionarismo e intolerância, ancorada numa elite socioeconómica com discurso anticorrupção e moralista mas corrupta e imoral até ao tutano, ao ponto de eleger Jair Bolsonaro, que por um acaso festeja o aniversário no mesmo dia do capitão Iudin. E até o fantasma de Cuba, por mais non sense que possa parecer nos dias que correm, continua na ponta da língua dos seus integrantes.

A esquerda, por sua vez, perdida em labirintos, continua, tantos anos depois, refém da popularidade mitológica de Lula, que entretanto passou pelo governo, de onde saiu com mais de 80% de aprovação, aplaudido pelos trabalhadores mas também pelos patrões, já com a barba impecavelmente aparada e camisas costuradas à medida devidamente enfiadas dentro das calças.

Como alguém um dia disse, numa adaptação meio livre da frase de Lampedusa, se nos ausentarmos três meses do Brasil quando voltamos mudou tudo. Se nos ausentarmos 30 anos, quando voltamos está tudo na mesma.

Mudou mais nestes 30 anos a União Soviética, hoje Rússia, do capitão Iudin.

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