Começou o Grande Prémio do Brasil

O país de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna não pode deixar de ter Grande Prémio de Fórmula 1. Logo, como o contrato entre a cidade de São Paulo e a empresa que administra o desporto automobilístico termina em 2020, o tema entrou em alta velocidade na agenda do Brasil.

Jair Bolsonaro chamou logo a Brasília o diretor executivo da Fórmula 1, o australiano Chase Carey, nos últimos dias. Ao lado de Wilson Witzel, o governador do Rio de Janeiro que inchou o currículo com um curso em Harvard imaginário e subiu a um helicóptero para metralhar um local de orações que confundiu com um esconderijo de traficantes, e de Flávio Bolsonaro, o senador investigado por nomear assessores-fantasma e entregar o dinheiro dos salários deles a um miliciano desaparecido, anunciou que "há mais de 99%" de hipóteses de o Rio sediar os grandes prémios brasileiros a partir de 2021.

Para tal, será erguido, com custos ainda incalculáveis, um autódromo no bairro carioca de Deodoro.

Ao lado do trio, com um simpático sorriso por debaixo de um belo bigode oitocentista, o diretor da Fórmula 1 ouviu tudo sem entender uma palavra de português. Quando chegou a sua vez de falar, afirmou que está a negociar quer com São Paulo quer com o Rio, no que foi entendido como um desmentido, ao vivo e a cores, ao presidente do Brasil: o assunto, pelos vistos, está, no máximo, 50% para cada lado e não "mais de 99%" para o lado dos cariocas.

E São Paulo dispõe de uma vantagem que não é exatamente um detalhe: já tem um circuito construído, Interlagos, a receber o circo dos automóveis há 18 anos seguidos e ininterruptos e a postos para o penúltimo Grande Prémio deste ano, a 17 de novembro.

Dois dias depois, João Doria, governador de São Paulo, promoveu uma conferência de imprensa, em que anunciou a disposição da maior e mais rica cidade do Brasil de continuar a sediar, como nos últimos 18 anos, o Grande Prémio. Lamentou "frustrar" o presidente - de quem foi aliado nas últimas eleições ao ponto de sugerir o voto "Bolsodoria", ou seja, Bolsonaro para presidente e Doria para governador - e convidou os jornalistas a sobrevoarem Deodoro, o bairro onde o suposto autódromo carioca seria erguido. "Para chegar lá só de helicóptero ou a cavalo, nem estradas tem", disse.

A seu lado, mais uma vez o diretor da Fórmula Um, a sorrir por debaixo do bigode oitocentista sem entender nada.

O que Chase Carey não entendeu é que o Grande Prémio do Brasil já começou. Basta ouvir os comentários "à margem" de Bolsonaro e Doria.

Nos últimos dias, o presidente mudou o discurso: depois de anunciar que não tentaria a reeleição, por causa do trabalhão que o Planalto dá, por comparação à vida mansa de deputado e de militar na reserva, afirmou na semana passada que "lá na frente, daqui a quatro anos", todos irão votar nele "outra vez".

E atacou eventuais concorrentes, à direita, Doria em especial. "A imprensa não diz que ele será candidato à presidência em 2022? Então ele não pode pensar só em São Paulo, tem é de pensar no Brasil", disse Bolsonaro.

O governador de São Paulo, entretanto, enquanto se dedica a manter os bólides na capital do estado que governa, põe-se em bicos de pés na política nacional. Tem sido o principal defensor de incluir todos os estados e todos os municípios na reforma da previdência, maior desígnio do governo, mas não, diz ele, para benefício de São Paulo, "que já fez a sua reforma", e sim "a pensar em todo o Brasil", numa resposta à acusação de Bolsonaro.

O Grande Prémio do Brasil deste ano será em São Paulo, o do próximo ano também, só o de 2021 está em dúvida, no meio do braço-de-ferro das suas principais lideranças brasileiras de direita - a liberal e elitista de Doria e a extravagante e extremada de Bolsonaro. Mas ambos já só pensam em cruzar a linha da meta à frente do rival em 2022.

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