Gabriela vai ter problema

Antes da tomada de posse do marido, em janeiro de 2019, Michelle Bolsonaro fora notícia duas vezes no mês anterior.

A segunda das quais por ter deixado Marambaia, praia onde a família gozara férias após a campanha, vestindo uma t-shirt com uma frase enigmática estampada: "Se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema".

A frase era da juíza Gabriela Hardt e foi dirigida a Lula Silva, durante o julgamento por aqueles dias do caso conhecido como "Sítio de Atibaia" no tribunal de primeira instância de Curitiba.

Hardt, que sentenciou o antigo presidente a 12 anos e 11 meses de prisão no processo, substituíra Sergio Moro, juiz que, depois de condenar Lula no caso do "Tríplex do Guarujá", acabara de ser contratado pelo governo do marido de Michelle.

Filha de um ex-engenheiro da Petrobrás que publicou textos críticos a Lula nas redes sociais, a juíza usou aquela expressão - "se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema" - para marcar distância do antigo presidente logo de caras no julgamento.

E ganhou a admiração de todos aqueles milhões de brasileiros de classes sócio-económicas médias e altas ou simplesmente emergentes, como Michelle, que não só odeiam Lula, por aquilo que ele representa politicamente, como acham que ele deve ser colocado no seu devido lugar, por aquilo que ele representa socialmente.

Onde já se viu um retirante nordestino, barbudo, metalúrgico, com um dedo a menos perdido num anónimo torniquete, saído do chão da fábrica diretamente para os salões nobres do país, sem sequer limpar as botas plebeias no capacho nem pedir licença aos capitães hereditários de plantão, encarar uma autoridade daquela maneira?

No Brasil, não. No país dos "homens de bem", nem pensar. Na terra que inventou o "você sabe com quem está falando?", aquela reprimenda de Hardt tornou-se, naturalmente, digna de decorar t-shirts.

Entretanto, quase um ano depois, a juíza do "se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema" voltou às manchetes: um tribunal superior decidiu anular uma sentença sua, relativa a desvios de verbas em Santa Helena, no interior do Paraná.

A prefeita da cidade e dirigentes de organizações sociais acusados de organização criminosa e lavagem de dinheiro podem ficar impunes porque Hardt, segundo os seus superiores, além de permitir uma escuta ilegal ao marido de uma das rés, ainda "reproduziu na sentença argumentos de terceiros copiando peça processual sem indicação da fonte" - o famoso "corta e cola".

No caso da sentença de Lula, a juíza já incorrera no vício. Segundo a defesa do antigo presidente, os cabeçalhos, os rodapés, as margens, a extensão das linhas, os espaços interlineares, os parágrafos, as fontes e os tamanhos, assim como o teor do texto, da sua sentença sobre o "Sítio de Atibaia" eram absolutamente iguais ao veredito de Moro sobre o "Tríplex do Guarujá".

Ao ponto de, a dada altura, Hardt se referir à propriedade rural de Atibaia como "apartamento", o termo usado pelo hoje ministro da justiça no caso do tríplex.

Dadas as provas abundantes e robustas contra si, a juíza confessou que sim, que cortara e copiara, para poupar tempo e ter menos trabalho.

Pode ser, portanto, que a sentença de 12 anos e 11 meses de prisão aplicadas por Hardt a Lula venha, como a outra, a ser anulada, para desgraça dela. E irritação de todos os que se regozijaram com a sua frase mais famosa.

Moral da história: a juíza Gabriela Hardt "vai ter problema".

Para quem estava atento, no segundo parágrafo dizia-se que antes do episódio da t-shirt , Michelle Bolsonaro já havia sido notícia, no dezembro anterior à posse do marido.

Sim, quando um órgão fiscalizador das finanças descobriu um cheque de 24 mil reais na sua conta proveniente de Fabrício Queiroz, o miliciano no epicentro do escândalo de desvio de dinheiro público do salário dos assessores do seu enteado, senador Flávio Bolsonaro.

Se a justiça brasileira quiser, Michelle também pode vir a "ter problema" por causa disso.

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