Emboscada em Havana

Os portugueses deviam conhecer melhor Viriato, o herói lusitano - e os brasileiros também, porque a história de Portugal é a pré-história do Brasil.

Na terceira das guerras lusitanas, no ano de 148 antes de Cristo, diante de um exército romano, liderado pelo pretor Caio Vetílio, muito mais numeroso, Viriato aplicou, com virtuosismo, a tática de guerra chamada em latim de concursare (movimentar). Consistia em provocar o rival e recuar logo em seguida, uma, duas, três vezes.

O objetivo de Viriato era compelir o inimigo a persegui-lo até um território onde os guerreiros lusitanos se sentissem cómodos e os romanos desconfortáveis - no caso, uma passagem estreita à margem do rio Guadiaro, na Andaluzia, onde Viriato dizimou o exército rival, Vetílio incluído.

A extrema-direita do Brasil, talvez por ter boa parte das forças armadas do seu lado, conhece as táticas de Viriato. A oposição - que vai da extrema-esquerda à direita moderada - não. E, mesmo se gabando de ser 70% da população, vai sendo derrotada na arena das redes sociais pela minoria, como os homens de Vetílio pelos de Viriato.

Vem esta introdução a propósito do Roda Viva, influente programa de entrevistas do canal brasileiro TV Cultura homónimo da obra de Chico Buarque. Nela, o humorista Marcelo Adnet, depois de se assumir de esquerda (ele acertou na mosca ao justificar que no pornograficamente desigual e injusto Brasil não se pode ser outra coisa), foi confrontado com uma provocação do comunicador Marcelo Tas. "Mas na China, na Coreia do Norte, em Cuba não há humoristas", disse o entrevistador convidado.

Educado, Adnet respondeu à rasa interpelação com didatismo, explicando que há uma diferença entre ser comunista e ser progressista e que, da mesma forma que há exemplos de regimes de esquerda que caíram no autoritarismo, há-os também, talvez em número superior, à direita.

No dia seguinte, Tas foi crucificado pela esquerda digital.

Por exemplo, Gregório Duvivier, outro humorista assumidamente à esquerda, e Manuela D'Ávila, candidata à vice-presidência na candidatura presidencial de Fernando Haddad em 2018, investiram tempo a partilhar vídeos de valorosos cómicos cubanos para esfregar na cara de Tas.

Sem se aperceberem de que, como Vetílio 148 anos antes de Cristo, foram levados para um campo de batalha onde o adversário se sente muito mais cómodo.

Não: por mais que certa esquerda tenha sonhos eróticos com a boina de Che, as barbas de Fidel ou o discurso anti-imperalismo americano, não pode jamais ir por aí.

Ao defender o regime cubano, cujos méritos, a existirem, são obviamente submersos pelo simples facto de na ilha não haver nem democracia, nem eleição, nem voto, permitiram que a extrema-direita que defende o autoritário de meia-tigela Bolsonaro colasse na oposição o rótulo de "defensora de ditaduras".

Contra Tas e os pastores que conduzem o gado bolsonarista o discurso deve ser outro: o que as oposições ao Governo brasileiro defendem não é Cuba, não é a Coreia do Norte, não é a Venezuela, mas sim os sistemas dos países mais avançados, prósperos e felizes do mundo, dos escandinavos ao Canadá, da Nova Zelândia à Europa Ocidental.

Isto é: Estado forte que garanta educação e saúde de qualidade à população e não apenas a uma elite endinheirada; combate inclemente à desigualdade; política ambiental decente; liberalismo no campo dos costumes.

Dito de outra forma: o que Bolsonaro prega é o oposto não do regime cubano mas dos regimes dos países mais avançados, prósperos e felizes. Por alguma razão, o presidente brasileiro, além de Trump, representante de uma América medieval, disse ter fortes afinidades com outro líder mundial.

Trata-se do príncipe saudita Mohamed bin Salman, monarca, primeiro-ministro, ministro da Defesa, presidente do Conselho Económico e do Conselho de Segurança de um regime autocrático que prega o fundamentalismo religioso, persegue e tortura dissidentes, esmaga manifestações feministas, é acusado do homicídio de jornalistas e comanda intervenções militares sangrentas, como a do Iémen.

Em resumo, o que a oposição ao bolsonarismo deve sublinhar é que enquanto ela se espelha na Escandinávia, o Governo brasileiro emula o regime saudita. Defender o regime cubano, pelo contrário, é enfiar-se na estreita passagem à margem do rio Guadiaro.

Correspondente em São Paulo

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