Correspondente em Sucupira

Desde "Páginas da Vida", a "novela das oito" da TV Globo de 2006, que Regina Duarte não era protagonista de nada relevante. E não recebia a atenção dos media num país de mais de 200 milhões de habitantes que faz e desfaz ídolos, estrelas, astros, celebridades, mini-celebridades, famosos e famosinhos a um ritmo vertiginoso.

Graças ao convite para substituir o único nazi aparentemente assumido do governo de Jair Bolsonaro, o ex-secretário da cultura Roberto Alvim, ela voltou à mira das cameras, dos holofotes, dos microfones, dos gravadores. Depois de 14 anos meio esquecida, foi até notícia do "Jornal Nacional", o espaço noticioso que antecede a "novela das oito". Regina voltou ao horário nobre.

Comprometeu, no entanto, duradouras amizades ao associar-se a um presidente que odeia qualquer expressão artística, além de música sertaneja e de folhetins religiosos da TV de Edir Macedo, e que diminui e ataca mulheres, à primeira oportunidade.

Uma dessas amizades terá sido a de Lima Duarte, seu inesquecível par romântico em "Roque Santeiro", sucesso de Dias Gomes, de 1985.

"É perfeito para o Brasil de hoje: Sinhozinho Malta na Presidência e Viúva Porcina na Cultura. Claro que é um Sinhozinho Malta, modéstia à parte, sem o charme do próprio. Bolsonaro e charme são duas coisas incompatíveis", disse o ator ao saber do "sim" de Regina a Jair.

O atual presidente não é comparável a Sinhozinho, claro que não, nem a nenhuma icónica personagem de Lima Duarte - embora talvez tenha algo de Sassá Mutema, o personagem central de "O Salvador da Pátria" alçado a um cargo para o qual não tinha o mínimo de preparo.

Mas faz lembrar outra novela inesquecível de Dias Gomes, "O Bem Amado". Nela, Lima Duarte interpretava Zeca Diabo, o mais temido matador de aluguer da região, convidado a visitar Sucupira, onde o prefeito local faz de tudo para inaugurar a sua magnum opus, o recém erigido cemitério da cidade.

Esse perfeito, Odorico Paraguaçu, tinha um discurso demagógico e vazio (faz lembrar alguém) e agia como um falso moralista (faz mesmo). E mais: tinha o estranho hábito de organizar manifestações espontâneas a seu favor. A presença do verbo "organizar" e do substantivo feminino plural "manifestações", por ser uma contradição em termos, fazia rir o público mas não o próprio Odorico.

Bolsonaro, voltando para a vida real (às vezes nem parece), pela segunda vez no seu ainda curto consulado no Planalto, vai organizar uma manifestação espontânea a seu favor nessa enorme Sucupira em que se tornou o Brasil.

A primeira foi em maio de 2019, a segunda será em março, dia 15, conforme convocatória por ele partilhada aos amigos do grupo de WhatsApp.

O alvo é, novamente, o Congresso Nacional, essa instituição fundada em 2019 com o objetivo de impedir o "Mito" de completar a missão divina para a qual foi eleito. Não, claro que não foi fundada em 2019, mas sim em 1826. E de 1991 a 2018 fez parte dela, com estrepitosa ineficiência, um tal de Jair Bolsonaro.

Nesse período, o Congresso derrubou Collor e Dilma, fez a vida negra a Fernando Henrique Cardoso, que dedica a maior parte dos seus "Diários da Presidência" a descrever a insaciável cobiça dos congressistas, e parasitou o governo de Lula da Silva, em troca de Mensalões, Petrolões e outros que tais.

Ou seja, o Congresso é um saco, para usar expressão local. Mas existe - desde 1826, não 2019 - e o titular do poder executivo tem que saber lidar com ele se quiser jogar sob as regras do jogo democrático. A não ser que não queira - muita gente preveniu, antes das eleições de 2018, que o eventual vencedor não só não queria como não saberia, nem conseguiria.

E eis-nos hoje, dia 26 de fevereiro, sob ameaça de ver um dos poderes do país, o legislativo, implodir por iniciativa de um Odorico Paraguaçu em carne e osso.

Implodir sim.

Eduardo Bolsonaro, o terceiro filho de Jair, "tweetou" que ninguém choraria se uma bomba nuclear implodisse o Congresso. Esqueceu-se que ele, na qualidade de congressista eleito em 2018, seria uma das primeiras vítimas da explosão.

Os filhos de Odorico, pelo menos, não usavam redes sociais.

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