Continuem

"Continuem", disse o deputado estreante Alexandre Frota, arrancando risos da plateia.

Frota, eleito na esteira do bolsonarismo, é talvez o maior símbolo do que se convencionou chamar em 2018 de "nova política", o contraponto à viciada "velha política" no Brasil.

A plateia em causa, constituída pelos seus pares, estava em plena comissão parlamentar de inquérito sobre a multiplicação de fake news desde a campanha eleitoral do ano passado.

E o que o ex-ator pornográfico queria que prosseguisse era o duelo entre Joice Hasselmann, dissidente do bolsonarismo que acusa os filhos do presidente de liderarem uma rede de notícias falsas com dinheiro público, e a ainda bolsonarista ferrenha Carla Zambelli, as duas, como Frota, deputadas estreantes.

Joice, que enquanto jornalista foi despedida da revista Veja por plagiar 23 profissionais, acabara de afirmar ter pago uma conta de restaurante a Carla, que conseguiu o prodígio de passar de republicana a monárquica em poucas horas durante conversa com Luis Phillipe D"Orléans e Bragança, suposto herdeiro do trono brasileiro e também deputado alinhado com Bolsonaro.

Carla negou esse pagamento. Mas Joice insistiu: "Paguei a sua conta e a do seu ex-namorado, o Alex".

"Continuem", disse, portanto, Alexandre, porque ele, como o resto da plateia, deliciava-se com a "nova política", em forma de lavagem de roupa suja entre as ex-amigas que um dia lutaram pelo título de "Bolsonaro de saias".

Minutos antes, Joice garantira também que o presidente havia pedido para que Carla descesse de um carro de som, um dia, durante a campanha eleitoral. "O presidente? Você é louca, Joice".

"E você é burra, Carla, desculpa", respondeu Hasselman a Zambelli.

"Isso é uma ofensa pessoal, senhor presidente", interpelou Carla. "Se você não tem o mínimo de nível, Joice Hasselmann...", continuou antes de ter o microfone cortado.

Joice afirmou ainda que um dia, o presidente da República a chamara ao gabinete para perguntar se Carla havia sido prostituta em Espanha.

Estupefacta, Carla, não respondeu.

"Continuem", pedia Frota, também ele, como Joice, um ex-bolsonarista, que, de tão desiludido com o capitão por quem um dia jurou lealdade, levou um bolo de aniversário para a comissão parlamentar de inquérito com uma velinha apenas. "Para comemorar um ano do Caso Queiroz", explicou, numa referência à investigação de corrupção e organização criminosa de que é alvo o primogénito do presidente, o senador Flávio Bolsonaro, ao lado do miliciano Fabrício Queiroz, por desvio de verbas de funcionários fantasmas do seu gabinete.

Aproveitando a pausa no duelo delas, o ex-ator usou os holofotes para rebater o colega, o bolsonarista Carlos Jordy, que havia dito a meio do debate que se sentara no seu colo. "Olha, eu não sabia que tinha ido aí, não", ironizou Frota, com a sua proverbial vulgaridade. Jordy rebateu no mesmo nível lembrando que Frota tem uma prótese peniana. É a "nova política".

"Continuem", terão pensado Joice e Carla.

Mas quem continuou foi o deputado Nereu Crispim, ex-bolsonarista, e por isso a sentir-se alvo de difamações dos ainda-bolsonaristas na internet, entre eles a deputada Bia Kicis.

Por causa dos ataques de Kicis, disse ele, os filhos estão no psicólogo e a sua filha deixou a faculdade. "Eu sofro calúnia. A minha esposa é chamada de prostituta. Eu sou chamado de corno todos os dias", relatou.

Frota voltou então a interromper os trabalhos. "Só para dizer que se vocês acham que aqui está quente, lá na Assembleia Legislativa de São Paulo saiu briga de soco. O pau comeu feio, isso aqui é Sessão da Tarde", aludindo às comédias românticas exibidas pela Globo nesse horário.

Em São Paulo, de facto, Arthur Mamãe Falei, deputado também de primeira viagem que cavalgou no sucesso do seu canal de youtube e na onda conservadora que assolou o Brasil, chamou os deputados do PT de vagabundos e acabou a ter de proteger-se dos socos deles no púlpito.

"Continuem", a "velha política" agradece.

Em São Paulo

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