Cleópatra no Planalto

Para aumentar o seu laço a Octávio César, vértice dominante do triunvirato que governava Roma, o pragmático Marco António aceitou casar-se com Octávia, irmã do primeiro, e arriscar o fim da sua tórrida relação com Cleópatra.

A explosiva rainha do Egito, ao ser informada do casamento por um mensageiro, de tão furiosa decidiu arrancar-lhe os olhos. De nada valendo o argumento do emissário de que a ele competira apenas trazer as notícias e não juntar o casal.

"A Tragédia de António e Cleópatra", de Shakespeare, merecia melhor associação mas não há como resistir a compará-la à tragicomédia de quinta categoria em que se transformou o Brasil de Bolsonaro.

Na última semana, o presidente do Brasil interpretou, salvo seja, o papel de Cleópatra. O casamento por interesse de Marco António é o depoimento do porteiro do seu prédio a implica-lo no assassinato de Marielle Franco e do seu motorista. O infeliz mensageiro é a TV Globo.

Depois é só trocar a brutal, mas poética, imagem dos olhos arrancados pelo histérico discurso presidencial dos "patifes, canalhas e porcos" numa suíte de hotel na madrugada de Riade.

Não foi o emissário, de facto, que uniu Marco António e Octávia, como explicou o próprio. Também não foi a TV Globo que ouviu "a voz do Seu Jair" a mandar entrar no condomínio Vivendas da Barra um dos autores do crime, Élcio Vieira, horas antes da execução.

Cleópatra, em vez de se enfurecer com o portador da notícia, devia lamentar ter-se deixado seduzir por António e atraído a poderosa mas perigosa Roma para dentro da sua monarquia, para dentro da sua própria casa, na tragédia de Shakespeare.

Na tragicomédia brasileira, Bolsonaro devia lamentar ter atraído a poderosa mas perigosa máfia do Rio de Janeiro - conhecida pelo eufemismo "milícia" - para dentro de casa e, por consequência, para os salões contíguos ao seu gabinete no Palácio do Planalto.

Nada prova que o presidente da República tenha envolvimento no caso da vereadora - ele até estava em Brasília à hora da tal visita do criminoso ao seu condomínio, o que pode ser álibi - mas quem é íntimo, por 30 anos, de Fabrício Queiroz, arrisca-se a ver o seu nome associado a crimes.

Queiroz, que foi "aspone" (sigla de "assessor de porra nenhuma" na gíria brasileira) do senador Flávio Bolsonaro, é por sua vez íntimo de Adriano da Nóbrega, líder do "Escritório do Crime", a face mais sinistra da tal máfia, e um dos criminosos mais procurados do Brasil.

A mãe e a mulher de Nóbrega faziam parte do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio. Naquela assembleia, Flávio homenageou Nóbrega e outros criminosos ligados ao "Escritório do Crime" com votos de louvor e congratulação por serviços prestados.

Ronnie Lessa, segundo a polícia o comparsa de Élcio Vieira no atentado da Marielle e operacional do "Escritório do Crime", por coincidência mora no mesmo condomínio de Bolsonaro e de Carlos, o segundo dos seus filhos. Um outro filho do presidente, Renan, namorou, inclusivamente, a filha de Lessa.

A haver patifes, canalhas e porcos nesta história serão os destinatários, por tantas décadas, da amizade íntima do clã Bolsonaro. Da mesma forma que a ira de Cleópatra deveria incidir na traição de Marco António e nas intrigas romanas.

Mas a rainha do Egito, assim como o presidente do Brasil, sabia que é muito mais cómodo matar o mensageiro.

Ainda antes de arrancar os olhos da TV Globo, a quem ameaça tirar a licença de concessão até 2022, o presidente quis decapitar o jornal Folha de S. Paulo, cuja assinatura o Planalto acaba de cancelar.

Porquê? Porque o mensageiro noticiou que o então deputado Bolsonaro empregou uma funcionária em Brasília que afinal vendia fruta no interior do Rio - para onde ia o salário da pobre senhora? - e porque descobriu uma fraude eleitoral com candidatas falsas no partido dele.

O Estado de S. Paulo, concorrente da Folha, também já correu o risco de ter os olhos arrancados por revelar que Flávio empregava dezenas de funcionários fantasmas de quem recolhia o salário num esquema organizado pelo amigalhaço Queiroz, o tal "aspone" íntimo do "Escritório do Crime".

Nem a arrebatada Cleópatra, que viveu antes de Cristo, foi tão violenta com os portadores das notícias como Bolsonaro, que governa 2019 anos depois do nascimento Dele.

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