Bolsonaro calou-se, bolsonarismo não

Duas mulheres ricas e com muito tempo livre (ou socialites, para resumir numa palavra) conversam.

Diz uma: "Não é correto você dar comida à pessoa que vive na rua porque a rua hoje é um atrativo, a pessoa gosta de ficar na rua".

A outra interrompe: "Fico passada: elas não querem sair da rua porque nos abrigos há horário para entrar, responsabilidade, limpeza e elas não querem isso".

A primeira retoma: "A pessoa na rua quer comida, roupa, ajuda e não quer responsabilidade".

Bia Doria e Val Marchiori, as duas prosadoras durante programa de internet da segunda, têm em comum, além do dinheiro e do ócio, serem eleitoras assumidas de Jair Bolsonaro.

A primeira, por ser casada com o governador de São Paulo, que entretanto rompeu com o presidente da República, talvez já não seja por cálculo político mas o seu âmago, como se viu, continua a tresandar a bolsonarismo.

Numa noite do fim-de-semana passado no Leblon, bairro chique do Rio de Janeiro, um casal foi visto e ouvido durante reportagem da TV Globo a reagir energicamente à abordagem de um fiscal de prevenção contra aglomerações.

Depois de o fiscal, Flávio, chamar educadamente o marido, Leonardo, de "cidadão", a mulher, Nívea, responde "cidadão não, engenheiro civil, formado, melhor do que você".

Nívea e Leonardo são o que se convencionou chamar de "bolsominions" ou de "gado", os agressivos apoiantes do presidente nas ruas e na internet.

Ele, que se define nas redes sociais como "pai, casado, engenheiro, atleta amador, mergulhador, direita, anti-PT, anti-PSOL, anti-PC do B, anti-extrema imprensa", requereu os 600 reais de auxílio estatal destinados à população mais carente do Brasil durante a pandemia, apesar da formação em engenharia sublinhada pela mulher e de participar em manifestações "contra a corrupção" de verde e amarelo.

Os dois casos indicam que embora Jair Bolsonaro ande mudo, por causa da prisão na casa do seu advogado do operacional que comandava um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro em torno da família presidencial, o bolsonarismo, no seu sentido mais puro, logo mais hediondo, não se cala.

Por outras palavras, embora o criador se sinta acuado, a criatura anda a solta - partindo do princípio que é Bolsonaro o criador e o bolsonarismo a criatura e não o contrário. Mas talvez seja, sim, o contrário.

Bolsonaro é a criatura do bolsonarismo, a versão século XXI das culturas do "você sabe com quem está falando?" e da "casa grande e senzala" que impedem há séculos o Brasil de progredir para uma sociedade de primeiro mundo.

O preconceito abjeto, o complexo alucinado de superioridade e a hierarquização furiosa dos seres humanos em castas, não sendo logicamente um exclusivo do país ganha nele uma força ainda mais acintosa, ao ponto de o tornar uma Amazônia urbana onde não convivem cidadãos iguais entre si mas espécies diferentes, com predadores e presas.

Sempre os mesmos predadores, sempre as mesmas presas.

Há esperanças? Talvez. Bia Doria foi obrigada a pedir desculpas por ter parecido "insensível às pessoas em situação de vulnerabilidade" quando o que pretendia era "fazer uma defesa dos abrigos públicos" onde teriam melhores condições de alimentação e higiene.

Ela reagiu após uma enxurrada de críticas de uma maioria, cada vez menos silenciosa, que se indigna com a cultura do "casa grande e senzala".

E a empresa onde trabalha a senhora do "cidadão não, engenheiro civil, melhor do que você" demitiu-a por sentir que a cultura do "você sabe com quem está falando" usado pela sua empregada não se adequa aos seus valores.

Mais um motivo de fé: Flávio, o tal fiscal que ela quis humilhar, é um brasileiro com licenciatura, mestrado e doutorado em veterinária mas em momento algum sentiu necessidade de os usar como arma.

em São Paulo

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