A estranha obsessão de Bolsonaro

Lula, para quem um dos maiores incómodos da prisão é não poder assistir aos jogos do Corinthians, utilizava o futebol como metáfora do seu governo. Bolsonaro, em terceiras núpcias, usa o casamento.

"Se eu posso garantir que o [ministro da economia] Paulo Guedes não vai sair? Bom, quando a gente casa julga que é até ao fim mas eu e você sabemos que nem sempre é assim", disse, em entrevista a um jornalista da Globo, o divorciado William Bonner.

"Queremos transferir a embaixada para Jerusalém mas, como um bom casamento, tem que namorar primeiro, ficar noivo...", afirmou outra vez.

Sobre a ditadura militar: "Não foi nenhuma maravilha, mas qual casamento é uma maravilha? De vez em quando tem um probleminha, é coisa rara um casal não ter problema, tá certo?".

A propósito de um convite para o vocalista de banda gospel Magno Malta ser seu vice-presidente anunciou: "Eu já o pedi em casamento, ele que está mudo".

"Está bastante claro que não está dando certo o ministro [da educação] Ricardo Vélez", disse numa outra vez. "Segunda-feira vamos tirar a aliança da mão direita e ou vai para a esquerda ou para a gaveta". Vélez caiu, assim como Gustavo Bebianno, outro ministro: "É como um casamento que prematuramente, infelizmente, se desfez".

Além de uma metáfora, Bolsonaro tem entretanto, uma obsessão. Os jornalistas que o acompanham evitavam comentar em público até se tornar de tal forma evidente que o jornal Folha de S. Paulo abordou o tema, com recurso à opinião de especialistas e tudo.

O presidente tem uma obsessão fálica. O mote foi o abraço recebido por um turista de feições orientais no aeroporto de Manaus. Após breve troca de graças, Bolsonaro disparou, com o dedo indicador muito próximo do polegar: "Tudo pequeninho aí?".

Acontece, foi um caso isolado. Não. Dias depois, disse que Paulo Guedes - um dos ministros com quem metaforicamente se casou - "se vai embora se a reforma da previdência for uma reforma de japonês". "Lá no Japão tudo é miniatura", acrescentou.

Em abril, interrompeu comunicação do ministro da educação sobre, portanto, educação para informar que "o Brasil tem, por ano, mil amputações de pénis por falta de água e sabão".

Para o presidente brasileiro, por outro lado, "turista que quiser ir ao Brasil fazer sexo com mulher está à vontade mas o país não pode ser conhecido como destino turístico gay". "Temos famílias", rematou.

Em conversa com o apresentador Sílvio Santos, do canal SBT, disse que "está na ativa, sem aditivos", numa alusão a medicamentos contra a disfunção erétil. Em entrevista recente à revista Veja, ao falar sobre o seu ministro Augusto Heleno, de 71 anos, disse que ele se queixou de se sentir "empenado". "Mas garantiu que é da cintura para cima", gracejou.

Também disse um dia que fazia xixi na cama até aos cinco anos.

E, claro, por mais gafes que cometa, Bolsonaro será sempre o presidente do Golden Shower por ter partilhado vídeo em que um homem urina sobre outro.

Aliás, já numa das primeiras vezes em que o anónimo deputado Jair Bolsonaro se fez notar, em 2011, foi para chamar de "kit gay" material escolar ligado à causa LGBT em que "apareciam meninos se beijando". Não só essas imagens não existiam como o material nunca chegou a ser distribuído pelo então ministro da educação Fernando Haddad.

Na campanha eleitoral, aliás, uma das fake news mais comentadas foi a de que Haddad, enquanto prefeito de São Paulo, espalhara pelas creches biberons em formato de pénis. A ideia do boato não terá partido de Bolsonaro mas nem só ele, no núcleo governamental, tem fascínio pelo homoerotismo.

Olavo de Carvalho, o guru presidencial, a cada duas aparições faz referência a relações anais ou ao ânus.

O governo mais moralista do Brasil em décadas assemelha-se afinal a Perpétua, a pudica personagem de Tieta do Agreste, de Jorge Amado, que guardava o pénis do falecido marido no armário.

Será que os eleitores de Bolsonaro sabiam que estavam a eleger um presidente com esta obsessão? Já deviam, pelo menos, desconfiar, não há nada mais fálico do que uma arma.

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