Com meninas não se brinca

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A grande diferença entre o mundo dos meninos e das meninas é que os rapazes apenas gostam de jogar à bola e as meninas gostam dos rapazes. Tudo o resto são consequências deste universo sociológico onde se joga a vaidade, a intriga, a competição e até a crueldade. A questão referente aos rapazes domino - tenho cinco e sei que tudo gira em torno de uma bola; a questão das raparigas estou a aprender - tenho uma. Mas uma coisa já sei: uma festa de meninas de 10 ou 11 anos e um fim de tarde na selva onde os animais competem refeições na margem de um lago são duas realidades parecidas. Um canto onde se reúnam três ou mais meninas é uma terra sem lei. Ali vale arrancar olhos, tudo é dramático e as amigas são inimigas, melhores amigas e outra vez amigas num intervalo de quatro minutos. Elas comparam festas como as mães comparam botas, comparam lapiseiras "fofinhas" como as mães comparam os filhos e conseguem descobrir defeitos umas nas outras com uma frieza que envergonharia qualquer agência de rating. Mas, aparentemente, adoram-se: trocam de roupa, choram juntas e andam de mão dada. Brincam a discutir sobre rapazes, roupas, amigas, etc. Uma agenda feminina de uma menina de 10 anos é muito mais densa do que uma reunião da concertação social e elas só precisam dos 15 minutos do recreio. O mais importante da agenda são os segredos, que são a alma das meninas. É preciso ter segredos para os poder contar "por amizade", claro. Contar um segredo de uma amiga é sinónimo de poder. Os melhores segredos são obviamente os que versam sobre quem gosta de quem. Normalmente as meninas gostarem todas do mesmo menino, elas aplicam nas relações amorosas o princípio de que a galinha da vizinha é melhor do que a minha. Ou seja, se a amiga gosta de um rapaz quer dizer que ele é "gostável", e isso chega. Sendo irrelevante serem ou não correspondidas. Um dos meus filhos não sabia, mas tinha uma namorada. Não sabia porque a decisão tinha sido unilateral - a menina e as amigas tinham decidido que ele seria namorado de uma delas. O rapaz, que só pensa em jogar à bola e tem pesadelos com Bruno de Carvalho, andava em pânico. Até que um dia, as amigas da namorada conseguiram imobilizá-lo e a menina conseguiu dar-lhe um beijo na cara. Ora, ele, que está a par da questão do assédio e sabe que este é um tema transversal ao género, queixou-se à professora: "Ela quer dar-me beijinhos", disse quase em lágrima. Sete anos. Explicou-me depois que não tem tempo para meninas porque tem de estudar e jogar à bola. Quanto à minha filha, ela gosta é de jogar matraquilhos, o que dá mais uns aninhos de sossego.

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