Ursula e o novo mundo europeu

Mais de seis meses depois das eleições para o Parlamento Europeu, a Comissão Europeia toma finalmente posse e inicia as suas atividades esta semana.

Ursula Von Der Leyen (ou Ursula ou VdL, veremos) inicia o seu mandato condicionada, principalmente, por três fatores: fragmentação político-partidária das Instituições, crescente conflitualidade e competição internacional, e uma agenda verde imposta pela rua.

Institucionalmente, já não há maioria, nem no Parlamento nem no Conselho, apenas com os dois partidos de sempre: socialistas e democrata-cristãos conservadores (PPE). No Parlamento, não é possível fazer maiorias sem incluir os liberais. E ninguém quer fazer completamente contra os verdes, cuja força eleitoral à esquerda, entre os jovens e no espaço público é crescente.

No Conselho, igualmente indispensável para aprovar o que quer que seja, a situação é oposta. Além dos tradicionais socialistas e populares, também há os liberais, que são praticamente um terço dos governos europeus, mas, por outro lado, há uma maior pressão conservadora e de direita, por força da influência de governos como o polaco e o húngaro, e não só. E há Macron. A saída dos britânicos e o apagamento de Merkel deixam o presidente francês sozinho no palco dos líderes europeus.

Deste cenário tanto pode emergir uma liderança nacional forte, francesa, provavelmente, ou da própria presidente da Comissão, como podemos assistir a um longo impasse e fragmentação europeia. Ou o habitual compromisso lentamente guiará as Instituições.

Internacionalmente, a situação é de crescente conflitualidade e competição. A Europa e o Médio Oriente já não são o que mais importa aos americanos. O adversário da América é assumidamente a China, que tem uma estratégia de conquista de influência na Europa e em África.

A nossa aliança militar, política e global com os Estados Unidos está enfraquecida. E embora para muitos continue a dever ser a pedra angular do Ocidente, a verdade, em qualquer circunstância, é que a Europa terá sempre de assumir maiores responsabilidades pela sua segurança e relevância global.

Na cabeça de Ursula Von der Leyen, ser uma Comissão geopolítica é responder a esta circunstância. Passar o foco da política interna à internacional, do mercado interno e da construção europeia para uma ideia de potência global. Para isso, estes líderes europeus acreditam que é necessário criar capacidades militares, desenvolver, ao lado, uma indústria que serve a defesa e se serve da defesa, ter empresas de referência na economia digital para concorrer com os gigantes e com a liderança tecnológica de americanos e chineses, e estimular a atividade económica com novos investimentos promovidos pelo Estado mas financiados maioritariamente pelos privados.

O guião para ler a próxima Comissão Europeia será essa trilogia: digital, defesa e investimentos verdes, num mundo onde a Europa acha que a China é um rival e um competidor e a América um aliado competitivo. Trinta anos depois da queda do muro, o mundo finalmente mudou.

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