Tempo de escolhas

A discussão sobre o risco de morte da União Europeia tem uma particularidade: é sobre dinheiro e sobre políticas, não é geoEstratégica. É por isso que é entre Norte e Sul (ou ricos e nem por isso), socialismos e liberalismos, e federalistas e soberanistas. E é por isso que é tão divisiva.

Foi quando a crise sanitária explodiu em Itália que percebemos três coisas: a epidemia ia cá chegar, os sistemas de saúde não estavam preparados e a União Europeia não tratava de questões sanitárias.

Até agora, as respostas de saúde nacionais dependeram menos da diferente capacidade dos sistemas de cada um do que de outros factores. Países menos prósperos resistiram melhor que outros, mais ricos ou com melhores hospitais (como Itália ou Espanha).

Foram sobretudo as circunstâncias e a preparação para tomar medidas, não a economia, que fez a diferença. Adiante já não será assim.

Passada a surpresa (e desilusão) inicial dos aflitos com a irrelevância da Europa para a saúde, a atenção foca-se na economia. E aí, a diferente preparação e os sectores que serão mais afectados, com o turismo à cabeça, (que é mais relevante onde a crise sanitária ou as limitações económicas são mais fortes) fará a diferença.

Para os teóricos de que a vida ou morte da Europa depende do dinheiro que a União Europeia der a quem mais precisa, há uma consequência aceitável e outra que o não é. À esquerda e à direita e entre europeístas e eurocépticos há uma espécie de convergência: solidariedade nas receitas. E uma divergência: soberania ou ideologia nas despesas. Em comum, uns e outros esperam que de Bruxelas venha dinheiro para as suas políticas.

Não há partilha de receitas sem partilha de políticas e de soberania. E não há resposta europeia se não houver partilha de receitas. É esta a condição europeia.

Daqui só há três caminhos possíveis: soberania e responsabilidade nacional, federalismo ou compromisso (com mais integração).

As duas primeiras são impossíveis, por agora. A Europa faz demasiada falta para que os que mais precisam saiam. E federalizar a sério sai caro aos mais ricos.

A prova de vida europeia far-se-á se acontecerem duas coisas: se houver verbas e se houver políticas. Ambas europeias. Ou seja, a Europa provará a sua relevância porque vai, se for, pôr dinheiro em políticas com potencial impacto à escala europeia. Não porque vai fazer solidariedade. E o que tiver sobretudo impacto interno, vai ser nacional.

É por isso que a discussão sobre o plano de recuperação europeu nos interessa tanto quanto a discussão sobre o plano de recuperação nacional.

Em Bruxelas, precisamos de fazer parte do compromisso, de contribuir para o desenho das políticas energéticas, digitais e de reindustrialização. E assegurar que a suspensão das regras sobre ajudas de Estado não distorce irremediavelmente o mercado interno. Em Portugal, temos de discutir as opções que temos com o dinheiro que podemos ter. Lá como cá, o céu não é o limite.

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