Quem está mal muda-se

"Um inglês, um escocês e um irlandês entram num bar. O inglês não gosta, todos têm de sair." Molly Scott Cato é (já por poucos dias) deputada ao Parlamento Europeu eleita pelo partido verde britânico no círculo do Sudoeste do Reino Unido e Gibraltar. No final do ano resolveu publicar esta espécie de anedota no Twitter para explicar quase graficamente como a decisão de sair da União Europeia não foi maioritária em todo o Reino Unido, mas apenas entre os ingleses e os galeses. Pelo contrário, 62% dos escoceses e 56% dos irlandeses preferiam, pelo menos à data, ter ficado na Europa.

A piada no Twitter, além de ser apenas uma piada, serviu, sobretudo, para recordar que a decisão divide o Reino Unido, a ponto de o poder separar irremediavelmente. A Escócia ameaça fazer um referendo para partir e juntar-se de novo à União Europeia, a Irlanda pode facilmente dividir-se numa guerra interna até que um dos lados ganhe (ou ambos percam, como aconteceu no passado).

O que Molly Scott Cato recorda, sem querer, é que mesmo as integrações mais antigas podem quebrar quando as divergências entre as partes se tornam ostensivas e decisivas. É muito cedo para dizer se o Reino Unido se vai desfazer ou não por causa do Brexit, mas é razoável admitir que essa é uma possibilidade. Ora, se pode acontecer ali, pode acontecer aqui, na União Europeia, onde a integração é infinitamente mais recente e as divergências muito mais profundas.

62% dos escoceses e 56% dos irlandeses preferiam, pelo menos à data, ter ficado na Europa.

Quando se conheceu o resultado do referendo no Reino Unido, houve gente em Bruxelas, e em algumas capitais europeias, que celebrou. Os que estavam sempre contra a integração europeia iam-se finalmente embora. Pois.

De cada vez que um Estado membro bloqueia uma decisão no Conselho, quando a decisão por unanimidade é exigida, aparece logo alguém a dizer que devia passar a ser tudo por maioria. E simples.

De cada vez que os Estados Membros têm dificuldade em chegar a um acordo que no Parlamento se alcançou pela simples maioria dos deputados (eleitos em representação proporcional dos respetivos países), há quem declare que são os governos e os egoísmos nacionais que impedem o progresso da Europa.

Em breve, quando os países de Leste forem os mais penalizados pelas políticas de resposta às alterações climáticas e pela alteração das prioridades nos fundos europeus e resistirem à mudança, ouviremos dizer que estão a mais, que estão a boicotar a Europa.

Independentemente da razão de cada um em cada uma destas discussões, a questão de fundo é que a piada de Molly Scott Cato também se faz ao contrário. Era uma vez um alemão, um francês e mais uns quantos que queriam entrar num bar. Os que não queriam também tiveram de entrar. Até ao dia em que decidiram sair definitivamente.

O Reino Unido teve sempre a possibilidade de ficar fora de várias políticas. Mas a lição do Brexit também terá de ser essa. A União Europeia é recente e serve um propósito. Impor uma integração para além da vontade dos povos deixa-lhes poucas escolhas.

Especialista em assuntos europeus.

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