Para que serve a Europa?

No século XXI, se a Europa não tiver política externa não existe. Não se trata de defender o fim das soberanias, dos interesses nacionais ou, menos ainda, de querer fazer de conta que não há interesses divergentes e mesmo conflituantes entre os Estados Membros. Trata-se, simplesmente, de reconhecer que o mundo está a reorganizar-se em grandes blocos com potências dominantes em cada um, mas que o confronto é mais económico do que militar. Os nossos aliados são os de sempre, mas os adversários são diferentes e as guerras também. A estratégia tem, por isso, de se adaptar.

A Europa do século XX garantiu a paz no Continente (nos pós-guerra), foi a âncora democrática (da Grécia, Espanha e Portugal), fez um mercado interno com dimensão (os alargamentos entre a nossa entrada e 2004) e foi o cumprimento das esperanças ocidentais (nos alargamentos a Leste). Hoje, tem de ter, à escala global, um papel diferente. Para os outros e para nós. E não será pela força militar que se vai definir - aí, a aliança com os de sempre não deveria ser questionada. É na economia que está a arma.

O jornal on-line Politico contava, a semana passada, como o estado de Washington, na costa Oeste dos Estados Unidos, estava a produzir legislação sobre proteção de dados "inspirada na legislação europeia". Não é a primeira vez que isto acontece. Pelo mundo fora, inclusive nos Estados Unidos, há casos em que as empresas globais preferem que a legislação vigente seja a mesma que/ tão exigente quanto a europeia. A razão de ser é simples: em certas circunstâncias, quem tem operações globais prefere ter um mesmo regime em toda a parte e que essas obrigações se apliquem em todas as geografias, para evitar vantagens competitivas de concorrentes apenas locais. Noutros casos, a perceção de que o ambiente ou os consumidores são, assim, mais protegidos, faz o seu caminho pela política. O que significa que o nosso softpower, de que alguns teóricos europeus gostam tanto de falar e de contrapor ao poder militar americano, funciona, sobretudo, por via económica. É por isso que as relações internacionais europeias se fazem mais na política comercial do que no gabinete da Alta Representante. Não é a suposta benignidade da política externa da UE que a torna relevante, é a importância do seu mercado.

Se é assim, é preciso saber como geri-lo. A relação com a Rússia, a abertura ao investimento chinês, o papel dos fundos soberanos de regimes autoritários, tudo isso tem de ser avaliado em termos estratégicos. Não se trata de duvidar das economias abertas, do comércios internacional ou da concorrência. Essas virtudes estão provadas. Trata-se de perceber que no modelo capitalista, os investidores globais que não se movem pelo lucro desvirtuam o mercado, as suas regras e leis. Não existe capitalismo de Estado, existem estados que tiram partido do capitalismo. Cabe aos restantes saberem defender o seu modelo. É nisso que a Europa tem de pensar nos próximos anos. Como manter o comércio internacional, a economia aberta e tirar partido da globalização sem que ativos fundamentais se tornem peças da política global de concorrentes.

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