Os novos europeístas

A União Europeia já serviu para fazer a paz, construir a prosperidade económica e amarrar países à democracia. Agora, Ursula Von der Leyen quer que a Europa seja um bloco económico e político autónomo. Um actor global independente. Sobra em ambição o que eventualmente falta em tudo o resto. Inclusive em acordo quanto à ideia.

No início, a construção europeia serviu para acabar com as guerras na Europa e criar um espaço de paz. Alguns dos países que vieram depois da fundação, procuravam garantir que ficavam do lado das democracias ocidentais (como Portugal, Espanha e Grécia, de uma maneira, e os países de leste, de outra) e da economia social de mercado (todos). Entretanto, serviu para construir prosperidade económica. Agora, quer ser outra coisa. Ou querem que seja, mais precisamente.

Jean-Claude Juncker quis que a Europa deixasse de pensar pequeno. Deixou de legislar sobre questões que parecem pormenores e disse que tinha uma Comissão política. Ursula Von der Leyen quer que a Europa pense muito grande. Quando diz que vai ser geopolítica quer dizer que vai olhar para o lugar da Europa no mundo. A transformação, a acontecer, é enorme. Resta saber se é possível, se é desejável e se é desejada.

A ideia generalizada é que o mundo passou de bipolar, no tempo da Guerra Fria, a unipolar no período seguinte, a quase multilateral depois (nunca se consegue bem dizer quando, mas a vontade é tão grande que há gente que jura que sim) e, finamente, ao que é hoje em dia: bi ou tri polar, com os Estados Unidos a perder hegemonia, a Rússia a exibir uma espécie de estertor agressivo e a China a ganhar importância. Alguns teorizam que, na verdade, este é um tempo desordenado. Não há poderes evidentes, há desordem internacional, não há regras e não há lugar para a Europa. Von der Leyen e os teóricos da nova geopolítica europeia parecem pensar de outra maneira.

Para quem acredita que a economia substituiu, pelo menos hierarquicamente, a importância das armas nas relações internacionais, a Europa pode ter um lugar no mundo superior ao impacto da sua diplomacia e à força dos seus exércitos. Quem acredita no peso do mercado europeu, acredita que é possível impor algumas regras à economia global, legislando para o mercado interno e fazendo acordos com os mercados externos. O mesmo raciocínio presume que as próximas revoluções económicas serão a digital e a climática. É por isso (por causa da ciência também, mas não só) que a Europa quer liderar a economia verde. E não ser completamente dependente no digital.

Esta visão geoplítica da Europa pressupõe que é necessária uma liderança política que aponte o caminho à economia, a promoção de líderes industriais europeus, uma revolução económica que defina padrões a partir do Velho Continente. E, apesar de tudo, alguma capacidade militar para dar algum músculo à pretensão de influência e clientes à indústria. Os instrumentos desta estratégia são a economia verde, a autonomia digital, uma dimensão de defesa e mais comércio internacional. Nisto, Macron, Ursula ou Merkel não são assim tão radicalmente diferentes.

Enquanto a maior parte insiste em discutir a União Europeia do final do século passado, há quem esteja a imaginar o futuro. Convinha não os deixar a falar sozinhos.

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