Os dias de Ursula

O que aconteceu, na segunda-feira passada, em Bruxelas, é muito mais normal do que pode ter parecido.

A dificuldade de acordo entre os chefes de Estado e de governo de 28 Estados membros, vindos de seis famílias políticas, era previsível. A isso acresceu a inépcia de transformar a escolha do presidente da Comissão num confronto esquerda/direita, apesar de não haver maioria possível no Parlamento sem os votos do PPE. Ou seja, houve demasiada bravata pública num processo que exigia diplomacia.

A discussão sobre o Spitzenkandidat, embora agora não seja a mais importante, merece alguns comentários. Ou bem que se acha que as eleições europeias são para escolher o presidente da Comissão, e nesse caso têm de ser tipo presidenciais (ou ganha o mais votado ou são a duas voltas), ou se entende que são de tipo parlamentar e, nesse caso, não havendo um partido com maioria absoluta, podem formar-se coligações. Foi o que aconteceu. As coligações têm um preço. Socialistas e liberais recusaram o candidato do PPE, os populares recusaram o candidato socialista (e recusariam a liberal). Podemos achar que alguns destes nomes eram mais qualificados do que outros, mas isso não é critério (senão, não eram necessárias eleições).

Houve demasiada bravata pública num processo que exigia diplomacia

Há, ainda, outras razões para não defender o Spitzenkandidat: a primeira de todas é que os tratados defendem uma codecisão entre o Conselho, que propõe (e, se for inteligente, antes disso consulta), e o Parlamento, que aprova. Ou seja, preside a Comissão quem tiver o acordo de duas instituições com absoluta mas diferente legitimidade democrática. Acresce que os restantes membros da Comissão são indicados pelos governos nacionais (das respectivas cores políticas, normalmente). Ou seja, com o Spitzenkandidat, pretende-se que há uma democracia directa, mas depois o resto do "governo" é-lhe imposto. A menos que alguém defenda o fim das nomeações dos comissários pelos governos. Nesse dia teremos criado, definitivamente, um Estado europeu a que os governos terão de submeter-se.

Aqui chegados, agora há duas grandes questões: saber se o Parlamento aprova Ursula, e saber quem ela é e o que defende.

Quanto ao Parlamento, há boas razões para ter dúvidas. Metade dos socialistas europeus estão desconfortáveis com o acordo, e os verdes ficaram de fora. Por outro lado, Ursula deveria poder contar com todos os partidos em governos nacionais (à excepção da Alemanha, por causa da objeção dos sociais-democratas que obrigou Merkel a abster-se), o que tornaria a eleição viável.

Veremos se a candidata a presidente mostra, nos próximos dias, capacidade política para agradar a uma maioria mais ampla do que aquela com que parte.

E aqui entra a outra peça desta discussão. Para lá de como foi escolhida, interessa quem é e o que defende. Do que se tem lido, sabe-se que é conservadora e liberal, defensora de rigor orçamental e políticas sociais, dos Estados Unidos da Europa (um dia, no futuro), de mais defesa europeia, crítica de Trump (não da América), de Putin e da China. E não se lhe conhecem opiniões em temas ambientais.

Os próximos dias de Ursula, até 15 de Julho, não vão ser nada fáceis. E ainda bem. A democracia é esse escrutínio, muito mais do que apenas uma eleição.

Consultor em assuntos europeus

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