O triunfo dos verdes

Em vez das classes, em vez das identidades, o Planeta. A entrada dos verdes para o governo da Áustria, em coligação com os conservadores, é um sinal de mudança na política europeia: os verdes como a nova esquerda que responde ao activismo dos mais novos e é compatível com a visão da economia dos socialistas mais velhos.

Com a evidente excepção de Portugal e Espanha e dos nórdicos, nos últimos anos os partidos socialistas e sociais democratas tradicionais da Europa têm perdido apoio eleitoral em países como França, Grécia, Alemanha ou Reino Unido. E nas eleições europeias, embora não tenham sido os únicos a perder, foram os que mais perderam.

Pelo contrário, nas eleições europeias de Maio passado, quando vários analistas previram que uma maré de extrema direita invadiria o Parlamento Europeu, houve uma meia-maré de verdes. Alemanha, França, Reino Unido, Irlanda. Em todos estes países os ecologistas tiveram resultados extraordinários. O efeito, porém, foi difuso. Por um lado, a agenda ambientalista entrou no léxico das prioridades da nova Comissão Europeia (na verdade, o "candidato" socialista Timmermans tinha-a incluído na sua campanha, também), desde logo com o chamado Green Deal. Por outro lado, no Parlamento Europeu os verdes anunciaram que não apoiavam esta Comissão. Não fariam parte da "coligação" que governa em Bruxelas. Não cediam nem faziam compromissos. Em Viena, os verdes quiseram ir para o governo com os conservadores. É essa a diferença.

Por mais relevante que seja, tradicionalmente a agenda ecologista é pouco abrangente. Tem justificado um ministério, eventualmente dois, dificilmente mais que isso. De resto, as ONGs ecologistas são, com frequência, mais visíveis do que os partidos, precisamente por o tema ser circunscrito. A situação, porém, está a mudar.

A agenda verde do combate às alterações climáticas e aos seus efeitos tem implicações em quase todas as áreas e apresenta-se com um programa em potencial conflito com o capitalismo e a economia de mercado. Ao entrar para o governo, com um partido conservador, os verdes austríacos não querem nem podem ser apenas os ambientalistas radicais ou úteis. Da indústria aos transportes, da energia ao comércio internacional, a sua ambição é, obviamente, generalista e o resultado está à vista. Uma promessa de neutralidade carbónica já em 2040 e o aumento do custo das viagens de avião fazem parte das primeiras medidas anunciadas. Por outro lado, também têm de fazer compromissos.

O líder de direita da coligação em Viena garantiu o fundamental da sua agenda política: o combate à imigração. Ambos consideram a mistura compatível.

Apesar de os verdes austríacos terem sido o quarto partido nas eleições, há três meses, se o novo governo austríaco for confirmado e se mantiver, isso pode significar que o eleitorado de esquerda reencontrou uma grande preocupação e quem o represente. Daqui podem acontecer três coisas: os verdes substituem os socialistas; os socialistas assumem por completo a agenda verde e transformam-se fundamentalmente; ou a agenda climática entra nas prioridades de todos os partidos tradicionais e os verdes são, como já foram no passado, influentes mas marginais. Partidos de governo ou consensuais, os verdes vão ficar.

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