O regresso dos migrantes

Em 2016, com 6 mil milhões de euros entregues à Turquia a troco de bloquear a passagem das fronteiras com a Bulgária e a Grécia, a União Europeia achou que tinha resolvido a crise dos migrantes. Em vez de refugiados e imigrantes a atravessarem a Europa nas televisões e jornais, os sírios, afegãos, iranianos, iraquianos e africanos de várias origens foram-se acumulando na Turquia. Foi uma solução que durou até à semana passada.

Desde a sua chegada ao poder, em 2003, que Recep Tayyip Erdogan tem jogado com os parceiros internacionais. Começou por fingir que acreditava na possibilidade de adesão da Turquia à União Europeia para, forçando a normalização democrática das instituições do país, pôr termo à tutela militar a que todos os governos turcos tinham estado sujeitos. A última vez que os militares tentaram removê-lo, se é que foi isso que aconteceu, foi a primeira vez em que foram derrotados.

As recentes intervenções, diretas e indiretas, da Turquia no Médio Oriente têm feito crer que há em Erdogan uma espécie de saudosismo, ou mimetismo, do tempo dos Otomanos. Na Líbia, junto a Chipre, na Síria. Ora aliado dos Ocidentais, exibindo provas da culpa saudita na morte de Jamal Khashoggi, ora aproximando-se dos russos, a quem encomenda mísseis embora seja um membro da NATO.

O único poder relevante que ocasionalmente se tem oposto a Erdogan é Putin. Não por alguma objeção profunda, mas porque não pode admitir que seja posto em causa o seu aliado na região, o regime sírio de Assad que o Ocidente, dos Estado Unidos à União Europeia, decidiu não confrontar até ao fim.

Com a decisão de 2016, a União Europeia pôs-se nas mãos da Turquia de Erdogan. Era óbvio que à primeira contrariedade relevante o líder turco ia fazer chantagem, franqueando as fronteiras. E fê-lo não apenas por uma questão externa, mas também interna. Os migrantes que a União Europeia não quer a deambular pelas ruas das suas cidades não são melhor recebidos pelos turcos. Mesmo na Turquia domesticada, o desagrado generalizado da população pode ter consequências políticas. Sobretudo depois da humilhação da semana passada: 33 mortos num dia é a maior derrota militar do exército turco em décadas.

Enquanto o governo grego, e em breve o búlgaro, seguram as fronteiras da Europa, a União Europeia tem de resolver em pouco tempo o que não fez em 4 anos: descobrir como gerir os pedidos de asilo dos refugiados e lidar com a emigração económica.

Abrir as portas e deixar entrar todos os esfomeados do mundo, por mais romântico que possa parecer a alguns, não é sequer viável, quanto mais desejável. O que é diferente da obrigação óbvia de salvar as vidas dos que estão a morrer, em terra ou no mar. Deixar milhares amontoados em campos insalubres e sem qualquer controlo é grotesco, mas é o que temos feito. Impor uma distribuição interna obrigando refugiados e migrantes a ir para onde não querem nem são queridos é uma fonte de sarilhos pronta a rebentar de novo. E quando os casos de coronavírus estoirarem entre imigrantes ou no meio desses campos, a crise será enorme e a pressão política ainda mais complicada.

Todas a soluções possíveis são difíceis, mas não têm de ser piores do que o que temos: Erdogan transformado em guarda-fronteiriço da Europa e 4 anos sem tomar decisões.

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