O ódio a Trump cega

Donald Trump foi o pior presidente americano de que nos lembramos. Afastou aliados quando era mais necessário tê-los, dividiu o país ao limite de uma quase guerra civil às portas das eleições e revelou absoluta desconsideração pela instituição da presidência, portando-se como um bárbaro diante dos pilares do Estado. Por todas estas razões, merece perder. Mas isso não é tudo o que há a dizer sobre estes tempos.

A fúria que Trump provoca tem impedido de ver muita coisa para além da guerra ideológica que, de resto, parcialmente o beneficia.

Ao longo dos últimos cinco anos, o atual presidente dos Estados Unidos da América foi tratado pela maioria da comunicação social como se apenas pudesse ser motivo de horror ou chacota. Muitas vezes com razão - de resto, Trump procura esse confronto e beneficia dele. Aquela personalidade só pode ser presidente de uns contra os outros - mas vezes de mais apenas porque essa também é a versão que o outro lado quer mostrar.

Qualquer análise da presidência Trump precisa de perceber o que motiva parte do seu eleitorado, conhecer os resultados económicos até às vésperas da pandemia e o que resultou na política externa. Exibir apenas os bárbaros, os fanáticos, com armas e sem máscaras, e confrontá-los com a elite urbana e educada que se lhes opõe, é tão redutor como os discursos do presidente. A América da CNN e do The New York Times é tão enviesada como a da Fox News, ainda que mais sofisticada.

Durante anos, a Europa, ou parte dela, pediu que os americanos saíssem do Médio Oriente, que não se portassem como polícias do mundo e que se abstivessem de promover a transformação de regimes e a democratização de lugares distantes. Pois bem, aí têm. Trump está a concluir o processo que Obama iniciou, virando-se para o Pacífico, a tirar tropas do Afeganistão, a promover acordos entre Israel e vários vizinhos, e a América deixou de estar obcecada com a Rússia, que considera mais uma prepotência regional do que uma potência global ameaçadora. O mundo americano está a mudar.

Quem pensa que o papel da América no mundo livre é fundamental e, pelo menos por enquanto, insubstituível lamenta o que se está a passar. Mas quem o desejou e, querendo ou não, quem governa vai ter de viver com esta mudança.

A Suécia, quem nem parte da NATO faz, rearma-se; a Rússia ameaça descaradamente a vizinhança até às fronteiras europeias; a Turquia, apesar da Aliança Atlântica, procura agressivamente um lugar próprio de domínio entre a Europa e o mundo árabe.

Há muitos europeus a achar que, derrotado Trump, o mundo será o lugar convivial que nunca foi. Fanatizados pelo seu ódio ao presidente americano, não querem perceber que têm de fazer escolhas, desde logo sobre a China, e assumir responsabilidades pela gestão dos riscos à volta das suas fronteiras. Trump não inventou Putin, não criou as tensões no Médio Oriente e as ambições do Irão, nem alimentou a China. O ódio a Trump é um estado de alma, não é uma política.

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