Quem manda?

Uma das poucas coisas óbvias sobre o que o Presidente Macron prometeu ao povo para acalmar - sem grande sucesso - os gilets jaunes é que aquilo tem um custo que não é compatível com as regras orçamentais a que França está obrigada por força de fazer parte da União Europeia e, sobretudo, da zona Euro. Um problema parecido com o que Itália tinha. Só que Itália é uma economia irreformável em pré-colapso há vários anos, governada por populistas com vontade de esbanjar dinheiro para agradar ao povo.

Ao passo que França é uma economia irreformável, qualquer dia em pré-colapso, governada pela grande esperança europeia, disposta a fazer o que for preciso para agradar ao povo, antes que o povo caia nos braços dos populistas. Acontece, ainda, que França é França. E até a Itália é a Itália. Ao passo que a Grécia, a Irlanda e Portugal são completamente diferentes. Para os mercados isso é evidente. Se também são para Bruxelas e para os restantes países europeus, é o que em breve iremos descobrir.

Como rapidamente se irá perceber, durante o tempo da Troika disseram-se duas verdades e uma mentira. A mentira, vai-se descobrir, é que as regras seriam iguais para todos. Obviamente , seriam se e quando se aplicassem a quem não tem alternativa que não seja obedecer. As duas verdades é que não havia mais ninguém que nos emprestasse dinheiro e, mais importante: se houver maior integração europeia, vai ter de haver menos política nacional.

Tirando meia dúzia de arruaceiros, os gilets jaunes franceses não foram a Bruxelas porque sabem que só o governo francês pode ceder e dar-lhes o que eles querem (seja lá isso o que for). E sabem que são os governos e os parlamentos nacionais que respondem perante os eleitores e, no limite, os temem.

Em Bruxelas, por maior que seja a legitimidade do Parlamento Europeu (e convenhamos que é grande), ou a da Comissão Europeia, desta vez escolhida com o modelo Spitzenkandidaten, não há verdadeiros interlocutores. E, no entanto, é cada vez mais ali que está o poder. Inclusive, como em tese se verá, o de dar ao povo o que o povo pede. Ou não.

Tudo isto para concluir que teremos de escolher um de três cenários: ou travamos a integração, e cada país mantém soberania política e liberdade de políticas; ou mantemos a cada vez maior integração e, das duas, uma: ou bem que as regras são iguais para todos, ou todos os países são iguais, mas há uns mais iguais que os outros. Se alguém acha que os contribuintes holandeses, alemães ou mesmo estónios estão disponíveis para pagar as reivindicações dos coletes de cada país, está tudo muito distraído. Mas se acham que é isso que vai travar os franceses, não estão mais lúcidos.

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Os aspirantes a populistas

O medo do populismo é tão grande que, hoje em dia, qualquer frase, ato ou omissão rapidamente são associados a este bicho-papão. E é, de facto, um bicho-papão, mas nem tudo ou todos aqueles a quem chamamos de populistas o são de facto. Pelo menos, na verdadeira aceção da palavra. Na semana em que celebramos 45 anos de democracia em Portugal, talvez seja importante separarmos o trigo do joio. E percebermos que há políticos com quem podemos concordar mais ou menos e outros que não passam de reles cópias dos principais populistas mundiais, que, num fenómeno de mimetismo - e de muito oportunismo -, procuram ocupar um espaço que acreditam estar vago entre o eleitorado português.