O novo ambientalismo

Entre os 75 deputados dos verdes que se sentam no Parlamento Europeu, apenas 6 vêm da Europa de leste (ou central, como os próprios preferem), recorda um artigo do Politico da semana passada, para daí concluir que os verdes ainda têm um longo caminho para fazer entre os países que aderiram à União Europeia em 2004 e depois. Onde as condições económicas são mais duras e as necessidades mais básicas, o ambiente não vem no topo da lista das prioridades dos eleitores, obviamente.

Como ali também se diz, no final do século passado houve movimentos e partidos ambientalistas a leste que fizeram parte da oposição aos regimes comunistas. Em nome do interesse dos cidadãos, contra a poluição, sobretudo industrial, que degradava a qualidade de vida das populações. Com o tempo, esse ambientalismo foi assimilado, a leste como no resto da Europa, pelos partidos políticos maioritários, à esquerda e à direita, e tornou-se comum. A ninguém ocorre, hoje em dia, duvidar da importância e necessidade de estudos de impacte ambiental, de garantir a qualidade das águas, dos solos, ou do ar. Só que esse ambientalismo, basicamente centrado no utilizador, na qualidade de vida dos cidadãos, foi sendo substituído por outro, muito menos antropocêntrico. A agenda ecologista actual, obviamente preocupada com a qualidade de vida dos humanos, não olha para o planeta, para o ambiente, ou para os animais como um meio ao serviço dos humanos e das suas necessidades. A par com (ou por causa de, ou a pretexto de) uma visão de catástrofe eminente, a nova agenda ambientalista não pede licença, exige. O ambiente deixou de dever ser uma preocupação para ser um argumento que, quando invocado, vale mais que qualquer outro. A urgência ambiental cala dissonâncias.

Não é preciso duvidar das circunstâncias climáticas para compreender que esta agenda, que é complexa, está a tornar-se perigosamente indiscutível.

Num artigo publicado há duas semanas no The New York Times, Christopher Caldwell explica com alguma calma que a agenda de activistas como Greta Thunberg (que tem, ela própria, o problema de tendo 16 anos ter a maturidade de um adolescente e não de um adulto) se está a tornar difícil de lidar em democracia, precisamente por ser absolutista e insusceptível de discussão por parte dos seus defensores. Como se o modo como queremos viver, retirar da pobreza milhões de seres humanos, as tecnologias que queremos ou conseguimos usar, fosse tudo simples de resolver. Parem os aviões, tenham menos filhos, ande-se de trotinete e já está.

Dizer que aceitar esta agenda sem discussão é perigosa, não é popular, mas aceitar que há temas, em democracia, que não são podem ser questionados é muito, mas mesmo muito, pior.

A necessidade de ter a agenda ambiental presente nas decisões políticas sai, garantidamente, reforçada com o peso eleitoral que os partidos verdes tiveram nas eleições europeias. Mas há dois riscos que corremos: não aceitar que estes temas são tão discutíveis como quaisquer outros; e impor, particularmente a leste, prioridades políticas que os cidadãos não escolheram nem escolheriam.

A democracia não garante os melhores resultados, menos ainda os que gostaríamos, mas não é dispensável em nome de coisa nenhuma.

Consultor em assuntos europeus