Medo da Rússia ou do Ocidente?

Ainda não tinham passado 24 horas do ataque aliado à Síria quando, ao jantar, a conversa começou no tema e desaguou no papel da Rússia quando alguém disse: "Ultimamente (por razões que não interessam) tenho visto a Russia Today (uma televisão russa que emite numa quantidade de línguas mas não em russo). A versão da história que eles contam é mesmo completamente diferente. Além de criticarem o Ocidente, fazem-no usando os próprios ocidentais. É incrível o que eles conseguem fazer. Recolhem depoimentos de ativistas, políticos, ONG e passam na televisão, a mostrar como até os ocidentais estão contra o que o Ocidente diz e o que está a fazer." Deixemos a questão de fundo (a situação na Síria) de lado, por um instante.

Não há nada de extraordinário no facto de haver propaganda russa. O Ocidente (nós) também o faz. Mas há duas diferenças fundamentais. Ou três. E convém perceber quais são, para evitar equívocos e algumas desgraças maiores.

Um. O Ocidente sempre usou, e usa, os dissidentes de lá para contar histórias. Mas, por norma, esses dissidentes tiveram de fugir, de se exilar ou acabam mesmo por morrer (ou quase, como Skripal pode contar). A União Soviética antes, a Rússia agora (a mistura é intencional) não tem tanta dificuldade em encontrar testemunhas para as suas causas. O que não falta, por cá, são os críticos do Ocidente sempre disponíveis para testemunhar contra o modelo de sociedade que construímos.

Dois. No Ocidente, sobretudo entre a esquerda moderada, o fim da Guerra Fria, ganha por um maldito republicano (Ronald Reagan), uma conservadora insensível (Thatcher) e um líder católico (o papa João Paulo II) levou a uma teoria que dizia mais ou menos isto: agora que a União Soviética acabou, a NATO e tudo o que representa a ideia de Ocidente capitalista organizado contra adversários deixa de se justificar. Não há por que temer, ou provocar, a Rússia. Por mais que polacos ou finlandeses lhes tentassem explicar (tantas vezes, em Bruxelas) que o problema não era apenas ideológico, era, também, cultural e histórico e que a Rússia não tinha deixado de ser o que sempre tinha sido, eles não queriam ouvir. Os vencedores tinham de ser submetidos ou seriam dominantes.

Três. O mundo, e em especial o Ocidente, não seria um lugar melhor se fôssemos todos iguais ou os divergentes silenciados. Nem um bocadinho melhor, insista-se. O que nos define é, também, a pluralidade. Mas não perceber que há, por cá, quem goste tão pouco do nosso modelo de sociedade e modo de vida quanto os nossos inimigos não é nada irrelevante. A defesa de uma ideia de mundo (a ideia ocidental de mundo) não acabou. A guerra não está nada ganha. Ouviste, Fukuyama? Nem sequer entre nós.

P.S. - Quatro. Se queremos trazer para o nosso lado as gerações que nem se lembram de o Muro ter caído, vai ser preciso voltar a explicar o valor das sociedades liberais. Sem voltar ao passado.

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Em Portugal, há recorrentemente espaço televisivo para políticos no activo comentarem notícias generalistas, uma especificidade no mundo desenvolvido. Trata-se de uma original mistura entre comentário político e espaço noticioso. Foquemos o caso mais saliente dos dias que correm para tentar perceber a razão dessa peculiaridade nacional. A conclusão é que ela não decorre da ignorância das audiências, da falta de especialistas sobre os temas comentados, ou da inexistência de jornalistas capazes. A principal razão é que este tipo de comentário serve acima de tudo uma forma de fazer política.