Boris perdeu, Juncker ganhou

Dois anos depois do referendo que decidiu o brexit, os britânicos já mudaram de primeiro-ministro, tiveram umas eleições quase inconclusivas, demitiram-se ministros e demoraram este tempo todo para escrever um documento de quase duzentas páginas sobre como é que querem que seja a saída e a vida com a União Europeia (UE) depois. Um documento cujas conclusões, note-se, precisam, finalmente, de ser discutidas com a Europa. E que fez Boris Johnson e David Davies caírem.

Pelo contrário, do lado da UE, há dois anos definiu-se uma estratégia que tem sido cumprida com rigor. Criou-se uma task force liderada por um francês, para manter o tema fora do dia-a-dia da Comissão, e os britânicos à distância; nunca se falou em novo referendo ou voltar atrás; disse-se o que se queria e quais eram as várias condições possíveis e, mais impressionante, nenhum dos 27 Estados membros agiu autónoma ou isoladamente. Dos polacos aos portugueses, dos franceses aos alemães, todos têm interesses diferentes a proteger na futura relação, mas ninguém tem dito nada em público que não esteja alinhado com a estratégia definida. Se há divisões, elas são discretas. Se há esperança de que tudo volte atrás, ninguém diz (e muitos nem desejam, reconheça-se). Se há disponibilidade para ceder, não se ouve.

Dois anos depois, os britânicos apresentaram um Livro Branco sobre o brexit que, segundo qualquer análise razoável, é o pior dos dois mundos. Ficam fora do processo de decisão mas dentro de muitas das regras. Obedecem, mas não mandam. E estão disponíveis para negociar regularmente com funcionários da Europa sobre como aplicam as leis europeias. Para quem queria recuperar o poder que a Europa tinha roubado, é pouco. Para quem queria mais democracia e menos burocracia, é pouquíssimo. Não são de estranhar as demissões, portanto. São só de lamentar. Se Davis e Johnson tinham uma ideia melhor, já deviam ter dito qual era. Se não tinham (e suspeita-se que não tinham), nunca deviam ter dito nada.

Para quem acha que o Reino Unido faz tanta falta à Europa quanto a Europa fará ao Reino Unido, tudo isto é lamentável. Prova de que uma campanha populista pode ganhar umas eleições, mas não saber o que fazer depois. Para quem achava que o brexit faria mal à Europa, o que aconteceu entretanto provou, mesmo que temporária ou provisoriamente, que os 27 vivem bem sem os britânicos e sem muitas saudades.

Entretanto, quem teve de reconhecer o seu erro foram todos os que achavam que a Europa devia ter mostrado capacidade de diálogo, disponibilidade para ceder e, até, quem sabe, aprender com o brexit para permitir que se estabelecessem formas mais flexíveis de integração. A estratégia seguida pela UE, de que o presidente da Comissão foi o campeão, provou, até agora, que a Europa consegue estar unida e falar a uma voz num tema divergente. E ganhar nas negociações com um país habituado a ter poder.

Os eurocéticos dividiram o país enquanto uniram a Europa. Talvez o futuro disto tudo não seja brilhante mas, para já, Juncker está a ganhar a Johnson.

* Consultor em Assuntos Europeus

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Anselmo Crespo

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Nos últimos três anos, o governo gozou de um privilégio raro em democracia: a ausência quase total de oposição. Primeiro foi Pedro Passos Coelho, que demorou a habituar-se à ideia de que já não era primeiro-ministro e decidiu comportar-se como se fosse um líder no exílio. Foram dois anos em que o principal partido da oposição gritou, esperneou e defendeu o indefensável, mesmo quando já tinha ficado sem discurso. E foi nas urnas que o país mostrou ao PSD quão errada estava a sua estratégia. Só aí é que o partido decidiu mudar de líder e de rumo.