A horrível descoberta do outro

Até há uns anos, se uns tarados achavam que o mundo era plano, aparecia uma notícia num canto de um jornal, ou uma reportagem sobre a sua bizarria, mas ninguém se poria aos pulos a pensar que um bando de terraplanistas ameaçava o mundo. Do mesmo modo que se um grupo de pais e professores numa escola da Catalunha resolvesse descobrir uma perigosa conspiração machista no Capuchinho Vermelho, ninguém lhes dedicaria demasiado tempo. Os pais dos restantes alunos que tratassem de resolver o assunto, ou mudar de escola. E quem concordasse podia tirar a Bela Adormecida das estantes lá de casa.

Toda a vida houve quem dissesse coisas diametralmente opostas daquelas que dizemos, a acreditar no que nos parecem ser disparates monumentais, a propor soluções que reputamos de absurdas ou perigosas, mas a maior parte das vezes esta gente era, e é, minoritária, e tinha o correspondente palco: pouco. E quando falavam, falavam entre si. O mundo, antes das redes sociais, era muito mais homogéneo para cada um de nós.

Uma das acusações mais por demonstrar que é feita aos facebooks e googles da vida é que eles reduzem o universo que nos chega e nos fecham numa bolha de visões e opiniões que já temos. A verdade é exactamente o contrário. Até às redes sociais, a maior parte das pessoas lia jornais (quando lia) com os quais se sentia mais identificada e não andava, em nome do pluralismo, a comprar o Guardian num dia e o Telegraph no dia seguinte. E se lia uma opinião com a qual discordava ferozmente, ainda assim resistia a passear pelas ruas fora a agitar aquela página e a berrar insanidades. Até que passou a poder, e a fazê-lo.

Os outros mais diferentes de nós tornaram-se muito mais visíveis e próximos. A mulher barbuda é a miss news, e gera paixões.

O que isto quer dizer é que há muito mais pluralismo, mas também polarização. E isso só é parcialmente bom.

A semana passada, Matteo Salvini, que calha ser vice-primeiro ministro de Itália, reuniu em Milão um grupo de gente que mistura uma espécie de neo-nazis da AFD alemã, os nacionalistas finlandeses, e o partido popular dinamarquês. Para já são poucos, mas o objectivo assumido é trazer mais uns, incluindo Marine Le Pen, Orban e os Polacos do gémeo que sobra. Esta gente tem opiniões e interesses incompatíveis entre si, mas tem em comum não fazerem parte do convencional. A excentricidade do que dizem deu-lhes visibilidade, a notoriedade trouxe votos (muitos, contraditórios), e agora são percebidos como uma ameaça, que provavelmente são.

O antídoto para a histeria que por aí vai passa por maior exigência com o pensamento excêntrico, e mais espaço para discutir o maioritário. O que dizem os radicais, à esquerda e à direita, provavelmente não resistiria a uma análise séria, mas é mais excitante entrevistar o Mário Morgado num dia e despedir um advogado que usa argumentos dilatório-absurdos no dia seguinte. As pessoas querem se excitar. Estão a consegui-lo

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.