Erdogan e Macron na batalha do Mediterrâneo

Recep Tayyip Erdoğan operou três enormes transformações na Turquia com impacto externo e todas elas pondo em causa os fatores de estabilidade regional. Abandonou a laicidade pública, para dar voz e poder aos islamitas e à ideia de que é um líder e um homem religioso, o que lhe dá valor na região; domesticou as Forças Armadas, que tinham por hábito ser quem domesticava os governos, para agora as ter como aliadas na sua política expansionista; e está disposto a levar ao limite a NATO que, na sua visão da região, já lhe serve de pouco.

Mustafa Kemal Atatürk desfez o derrotado e decrépito Império Otomano para, com a legitimidade de quem defendeu a unidade do país contra os Aliados, criar a Turquia do século XX: secular, moderna (não exatamente democrática) e pacífica. E, mais tarde, aliada do Ocidente na NATO.

Foi a essa Turquia, apesar de maioritariamente muçulmana, pobre e extremamente populosa, que em tempos se prometeu que poderia, um dia, mais adiante, aderir à "Europa". Sem que isso alguma vez tenha sido uma sincera possibilidade, do lado de cá, ou uma verdadeira vontade, do lado de lá. Mas era uma mentira útil para ambas as partes. Até que Erdoğan tirou absoluto partido dela.

Ao longo dos anos, e violando uma das regras básicas para poder aderir à Europa, a vaga democracia turca tinha uma tutela militar que intervinha, restaurando a ordem, a laicidade e a democracia, sempre que achava necessário.

Erdoğan usou a Europa, e as regras do suposto processo de adesão, para transformar economicamente o país, submeter tribunais e administração e diminuir o poder dos militares. Nessa guerra, a mais importante para a irreversibilidade do seu poder, começou por falar de grupos secretos que tentariam desestabilizar o regime, e acabou por ter um golpe de Estado falhado e nunca explicado, em 2016, que lhe permitiu prender militares suspeitos e adversários de várias espécies. O resultado desse percurso está agora à vista.

A Turquia que intervém na Líbia e na Síria, que ameaça a Europa com a pressão dos refugiados e migrantes, os interesses económicos de Chipre e que faz exibição militar face à Grécia é um novo regime. E a maior diferença é que Erdoğan agora também domina as Forças Armadas. Há semanas, a Bloomberg contava a história de a Marinha turca ter, no ano passado, retomado a tradição antiga de saudar o herói otomano Barbarrossa ao atravessar o estreito do Bósforo.

Erdoğan não é herdeiro de Atatürk. Isso já todos tínhamos percebido. Mas o que o define é ter a ambição do tempo do Império Otomano e, agora, os militares ao serviço dessa vontade.

A Turquia continua a ser um lugar estratégico, um enorme exército e relevância regional para que a NATO a considere fundamental. No passado, apesar da intervenção militar e da divisão do norte de Chipre, as divergências eram muito menores do que as razões estratégicas. Agora, a dúvida sobre a verdadeira utilidade da relação começa a ser mais séria. O que faz a Turquia na NATO? A questão está em saber se nos é útil porque ajuda à presença ocidental na região ou se lhe é útil porque nos limita a capacidade de reação às suas provocações.

Entretanto, numa espécie de distante vingança da crise do canal de Suez, percebendo o que são os seus interesses e aproveitando o desaparecimento do Reino Unido da cena internacional e o desinteresse americano da cena regional, Macron quer repor a influência e o poder franceses no Mediterrâneo. O sonho de Sarkozy. Inteligente e oportunamente apoiado na Europa.

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