À procura da Europa errada

Ainda que o filósofo pop Bernard-Henri Lévy (BHL) esteja para os franceses que agora vivem em Portugal como Amália estava para os nossos emigrantes em França, na segunda-feira passada os mil lugares da sala do Teatro Tivoli estavam, sobretudo, cheios de portugueses, a maioria satisfeitos. À saída, as pessoas cumprimentavam-se com a familiaridade e o entusiasmo dos militantes de um pequeno partido num comício de fim de campanha. Quem já passou por isso sabe como é: estávamos todos ali, conhecíamo-nos todos, e quase todos os que conhecíamos e se interessavam pelo assunto estavam lá. (O problema, claro, com frequência é esse.)

Durante mais de uma hora, Bernard-Henri Lévy deambulou por um monólogo (que podia ser um ensaio ou quase uma conferência) à procura da Europa. O essencial do argumento é que a União Europeia é a herdeira da melhor tradição cultural e política da Europa. É o produto da cultura e da civilização europeias. Mas corre perigo. Falhou em Sarajevo, a primeira guerra europeia do pós-Guerra Fria (ao contrário do fuzilamento de Ceaușescu, que foi o momento sanguinário do estertor do comunismo), e não pode falhar agora, quando é ameaçada por movimentos que, em vez de promoverem a secessão, defendem a transformação por dentro. Tudo isto parece certo, mas há um importante mas.

Na mesma semana, em resposta a um desafio lançado por Raquel Vaz Pinto, candidata do CDS às europeias, que pedia para se descrever #aeuropanumafrase, Francisco Mendes da Silva disse: "A Europa é uma coisa, a União Europeia é outra." Não é a descoberta da pólvora, mas resume bem o problema (um dos) do argumento de BHL: não fazer essa distinção.

Claro que a Europa política pretende ser a herdeira institucional dessa longa tradição (o name dropping foi extensíssimo), mas a verdade é que não é. Pelo menos, não é a única herança possível. Não é razoável nem legítimo achar que de Virgílio a Pessoa (já para não perguntar o que fazer com Tolstoi), de Sócrates a Mário Soares é todo um caminho de melhoramento da espécie que desagua na união política da Europa.

Essa narrativa, que é a tese de Bernard-Henri Lévy e de muitos euroentusiastas, esconde que a tradição europeia também inclui facínoras, ditadores, massacres, guerras, escritos abomináveis e outras maravilhas. E, sobretudo, que inclui uma história de enormes diferenças e divergências entre os seus povos. Sermos capazes de conter as tensões para o confronto é que é a grande vitória; ignorarmos os fatores da sua permanência seria o grande erro.

Há um último problema com o monólogo de Bernard-Henri Lévy: é que ele é um monólogo. Ele não discute. E, por não discutir, não é plural. Nem propõe nada para o futuro. Vender a Europa por causa do passado é muito menos do que o entusiasmo por uma honrosa e longuíssima linhagem pode fazer crer, mas é. Há muitas maneiras de ser europeísta, mas se não falarem do futuro nenhuma delas é relevante.

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