A Europa precisa de fazer mais amigos

Os dois maiores problemas na vizinhança da Europa são inevitavelmente problemas europeus. Teremos de lidar com a Rússia e a Turquia, sabendo que os americanos não vão ajudar muito, nem têm particular interesse em fazê-lo - exactamente o oposto do que aconteceu durante décadas. E que se não fizermos nada de consequente, a instabilidade nas fronteiras propaga-se com facilidade.

A "Europa" foi sempre uma ideia política com dois respaldos do lado de lá do Atlântico. Por um lado, a América liderava o nosso mundo e estava disposta a pagar o preço correspondente, à escala global e regional. Por outro, a "Europa" não precisava de um braço militar, porque já tinha a NATO. Ambas as ideias estão a ser postas em causa.

Perigosamente, para quem acredita que as dúvidas sobre o lugar da Aliança Atlântica só podem fragilizar a ideia de Ocidente, como o concebemos.

Se não quer agir para lá da NATO, nem contra a ideia de NATO, e se, na verdade, não quer - e provavelmente não deve - usar a força, a União Europeia tem de construir uma política de vizinhança robusta e consequente. Mesmo que sem armas. Ou com poucas.

É possível argumentar que a Rússia, que Putin, já não é uma potência global efectiva. Mas é uma potência regional altamente desestabilizadora e ameaçadora. A Geórgia e a Ucrânia sabem-no. Os bálticos temem-no. A capital da Bielorrússia, Minsk, está a 180 km de Vilnius (o mesmo que dista Coimbra de Lisboa), e a 550km de Varsóvia (que não é mais do que Lisboa - Madrid).

Lukashenko não é obra dos russos, mas é do seu interesse evitar a sua derrocada pela pressão popular. Se resulta, pode dar ideias difíceis de travar com envenenamentos e homicídios cirúrgicos.

A sul, a Turquia de Erdogan, membro da NATO, tem sido um bombeiro e pirómano. Aceita os migrantes que a Europa não quer, mas depois lança-os contra a fronteira da Grécia; combate o ISIS, mas também desestabiliza a região, ocupa partes da Síria, aproxima-se do Irão, alinha com uma das fações na Líbia e agora, mais grave para a Europa, a pretexto da exploração de gás, ameaça o Chipre e a Grécia, parceira na NATO.

A Europa não quer nem pode usar força contra estes adversários à sua beira, mas não pode ser transigente. As sanções são mais um sinal do que um instrumento eficaz, como se costuma ver. Apoiar as oposições, quando as há, pode servir de pouco. As revoltas da primavera árabe não resistiram aos invernos. E mesmo cá dentro não correu tudo bem.

Ser realista (duro mas consciente dos limites) é um dos caminhos. Mas não é o único. Não cabe aos estados (ou à União Europeia) fomentar revoluções e oposições. Mas é possível apoiar quem pode forçar a mudança, e é o melhor que podemos fazer.

As oposições possíveis, seja na Rússia, na Bielorrússia ou na Turquia, têm de saber que têm amigos e aliados deste lado. E que as famílias políticas europeias, os movimentos da sociedade civil e até alguns apoiados por fundos europeus mas geridos autonomamente, estão disponíveis para ajudar. Não é apenas, ou tanto, por uma fé inabalável na universalidade da democracia. É, sobretudo, porque não melhor há alternativa. Se queremos ter aliados, temos de os apoiar.

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