A Europa, no vazio da América

A tripulação do navio aplaude o seu comandante e grita "herói", enquanto Brett Crozier abandona o porta-aviões nuclear USS Theodore Roosevelt, demitido pelo governo por ter enviado uma carta exigindo que fossem tomadas medidas para evitar a propagação do vírus a bordo do navio com quatro mil militares. A revolta da marinha, o ramo das forças armadas que melhor representa a projeção global americana, duvidando das chefias e da Administração é uma imagem rara e eloquente.

No início, os serviços de inteligência americana não foram capazes de perceber o que de facto se passava na China; depois, a Administração (além de Trump) não conseguiu ler a informação que veio de Itália; finalmente, a solidariedade americana não se sentiu, nem em dinheiro, nem em equipamentos, nem em militares a fazer o que as tropas russas fizeram nas ruas de Itália. Irrelevante na Europa, invisível no Pacífico, ausente do mundo. A grande potência global não teve, até agora, qualquer contributo útil na crise do coronavírus. E mostra-se, internamente, perdida e desautorizada.

Ao longo de décadas habituámo-nos a confiar no poder americano. Militar, económico, científico, até moral em determinados ocasiões. Desta vez, nada. Na verdade, nem nós nem eles.

Pela primeira vez em mais 70 anos, perante uma crise, ninguém olhou para a América à espera de liderança, domínio ou inspiração. Se uma das marcas de água de uma potência global é que contamos com ela em momentos de crise, a falta de expectativas quanto aos Estados Unidos, nestes tempos, é um sinal fortíssimo da descrença. E a falta de uma resposta que restaurasse a reputação, a prova de que é justificada. A pandemia acelerou, mais do que revolucionou. Expôs, mais do que criou.

A América chegou a 2020 distante dos aliados europeus e longe de concretizar a transição para ser a potência do Pacífico que Obama iniciou e Trump quis continuar. Protecionista, na economia; fechada sobre si, indiferente à ideia de alianças e aliados, na política internacional. E, além do mais, ferida.

É previsível que a ciência (pública ou, mais provavelmente, privada) venha a ser fundamental para o dia seguinte. É possível que a recuperação económica americana seja mais acelerada, mesmo que comece mais destruída. É provável que a resposta na comunidade recorde o que de melhor a América tem - laços muito mais fortes do que na maior parte dos países europeus. E é certo que a tecnologia, o conhecimento, os cérebros, não desapareceram. Mas a memória da impotência interna e da irrelevância externa, isso ficará, muito provavelmente.

A crise do Suez, em 1956, não decretou a morte do Reino Unido, mas revelou o seu novo lugar no mundo. E mostrou que as novas potências eram a União Soviética e os Estados Unidos da América.

A pandemia do coronavírus não vai decretar o fim da América, mas parece ter exibido que a potência hegemónica ocidental já não o é. Enquanto os Estados Unidos tentarão restaurar, ou reencontrar, o seu lugar no mundo, a Europa pode, também, descobrir o seu. Deve.

Sem poder militar decisivo, fragmentada e empobrecida, a Europa terá de ser uma comunidade, para estar unida, de reconhecer interesses comuns, para agir em conjunto, e de acreditar nos seus valores ocidentais, para ser modelo e influência.

Vamos ter muitas saudades da América. Na sua ausência, nunca a Europa fez tanta falta.

Consultor em assuntos europeus

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