A Europa é útil ou não existe

O mundo de hoje pode simplisticamente dividir-se em três poderes e meio (ou 2 +2, mais realisticamente), com a China expansionista, a América protecionista, a Rússia beligerante e a Europa assustada. Era assim o nosso mundo à entrada, não sabemos como será à saída, mas este não é o melhor cenário para passarmos por uma crise.

Num primeiro momento, pensámos que o regime chinês poderia ser posto em causa internamente pelas populações que acreditaram ter sido inicialmente mantidas na ignorância e ao abandono. Mais de três meses passados, as imagens que o regime partilha exibem uma população supostamente agradecida. Dizem-nos que são manipulações. É possível. O certo é que ao fim de menos de um mês do vírus na Europa, a China foi percebida como mais solidária, ou capaz de agir com utilidade, do que a Europa.

Enquanto a Alemanha proibia a exportação de máscaras (medida que supostamente foi corrigida) e a presidente do Banco Central Europeu hesitava sobre as medidas que estava disposta a tomar, Pequim mandava médicos e equipamentos para Itália. Não é difícil imaginar a quem os italianos serão gratos. E, amanhã, nós. (Entretanto a Comissão Europeia agiu sobre o tema no fim de semana.)

Enquanto isso, a América de Trump fazia o que tem feito: isolava-se dos seus aliados e desorientava-se internamente. Primeiro não se passava nada, depois o risco vinha da Europa (mas não do Reino Unido que até tem uma estratégia de contágio e não de contenção) e finalmente começaram a ser tomadas as mesmas medidas que em toda a parte. Até a proteção social dos mais frágeis parece inspirada no modelo europeu.

Se não tivesse havido a Segunda Guerra Mundial não teria havido União Europeia. A "Europa" fez-se por necessidade e ambição. Foi a forma que os países encontraram para "fortalecer e manter a paz e a liberdade". Foi isso que ficou escrito no Tratado de Roma, em 1957. A sua prova de vida far-se-á nos próximos tempos. Para já está difícil. Ou, pelo menos, está a ser duro.

As primeiras notícias sobre o papel da Europa na resposta ao coronavírus desiludem, no mínimo. Colocam tudo em causa, eventualmente.

Primeiro, não houve capacidade de recolher informação ou antecipar cenários. A China terá partilhado pouco e escondido muito. Outros, como os americanos, também não parecem ter sido capazes de estar melhor informados.

De novo, quando a crise chegou à Itália e foi explodindo, também não se viu a utilidade europeia. A informação ou não circulou, ou não foi útil para tomar decisões.

Agora é tempo de provar a utilidade europeia. Não por uma questão filosófica ou emocional de defesa da ideia de Europa, mas porque ela pode e deve ser de facto útil. É isso que a justifica.

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