24 horas em Timor para a vida inteira

Quando a comitiva do então Presidente da República Jorge Sampaio aterrou no aeroporto de Díli faltavam poucas horas para a declaração oficial da independência de Timor-Leste. Meio mundo tinha-se deslocado ao território para assistir ao nascimento de um país - estava lá o secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan, o ex-presidente americano Bill Clinton, a presidente da Indonésia Megawati Sukarnoputri e dignitários de 92 países. A comunidade internacional em peso para assistir à festa da independência, onde aprendi que é possível chorar em silêncio. Mesmo que sejam milhares a chorar ao mesmo tempo. E que quando se alcança a liberdade, aprende-se a perdoar.

Foram apenas 24 horas de permanência em Timor. Mas tão intensas que ainda hoje as carrego: os timorenses eram a partir daquele dia 20 de maio de 2002 donos de uma Nação, depois de tantos anos sob o jugo indonésio. Passaram a ser senhores do seu destino, sob os aplausos de todo um planeta que desde o massacre de Santa Cruz, a 12 de novembro de 1991, despertou consciências para o que estava a acontecer na pequena ilha vizinha da Austrália.

Foi a primeira vez que pisei o antigo território português invadido pela indonésia em 1975. E foram tantas a vezes que lá quis estar! Na bagagem levava uma espécie de doutoramento emocional - como cidadã e como jornalista.

Em 1991, "piquei" o telex da Lusa que dava conta dos acontecimentos no cemitério de Santa Cruz, ainda longe de saber quantas pessoas tinham sido mortas às mãos dos militares indonésios e as consequências que daí adviriam.

Quem não se emocionou e se revoltou com a imagem do jovem a esvair-se em sangue depois de ter sido atingido?

As imagens captadas nesse dia pelo repórter Max Stahl foram difundidas pelos quatro cantos do mundo e viriam a revelar-se uma grande ajuda para a causa de Timor-Leste, despertando a consciência mundial para as atrocidades que estavam a ser cometidas no território. Ainda hoje não se sabe ao certo quantas pessoas perderam a vida - mas foram centenas - naquela manifestação que juntou dois mil timorenses no cemitério para homenagear o jovem Sebastião Gomes, abatido duas semanas antes nos confrontos entre resistência e as tropas indonésias, na Igreja de Santo António de Motael.

Quem não se emocionou e se revoltou com a imagem dos timorenses a fugirem do cemitério para escapar aos tiros? Quem não se emocionou e se revoltou com a imagem do jovem a esvair-se em sangue depois de ter sido atingido?

Como jornalista fiz a cobertura da primeira visita do líder histórico da resistência timorense Xanana Gusmão a Portugal, já depois de ter sido libertado da prisão de Cipinang. As reuniões oficiais com os líderes portugueses foram isso mesmo, mas o que dizer do encontro com o seu povo por baixo da pala do Pavilhão de Portugal na Expo? Como não me emocionar com a imagem do guerrilheiro de punho cerrado sobre o peito, em que carregava o sonho da liberdade, a cantar o hino das Falintil?

Durante essa visita apertei-lhe a mão. Como explicar o que sentiu uma jovem jornalista ao cumprimentar o herói da resistência?

Como cidadã/jornalista guardei o DN que vestiu a primeira página de branco por Timor-Leste. Como cidadã/jornalista devorei todas as crónicas e reportagens dos repórteres que estavam no território aquando do referendo que deu a autodeterminação a Timor-Leste - há precisamente 20 anos -, da escalada de violência perpetrada pelas milícias indonésias contra o povo maubere que se seguiu, do quotidiano na sede da UNAMET onde nasceu uma criança a quem a mãe deu o nome de Pedrito Unamet. E como cidadã/jornalista recebi com alegria as palavras do presidente indonésio a anunciar a ida de capacetes azuis das Nações Unidas que viria a pôr fim ao massacre do povo timorense.

Parece pouco, mas aquilo que se sente não é mensurável. E foi com este historial de emoções que aterrei em Díli. Para mais tarde perceber que 24 horas podem ser muito na vida de um país, quanto mais na nossa.

Não foi só ao nascimento oficial de um país a que assisti. Aprendi como um povo sabe perdoar a morte, a tortura

Não foi só ao nascimento oficial de um país a que assisti às zero horas de 20 de maio de 2002, quando foi içada pela primeira vez a bandeira da "restaurada" República Democrática de Timor-Leste. Aprendi como um povo sabe perdoar a morte, a tortura. Porque quando é alcançada, a liberdade fala mais alto. Mesmo que se tenha de esperar anos por ela, mesmo que custe muitas vidas.

As cerimónias da independência realizaram-se em Taci Tolo, Liquiçá. Um descampado poeirento que acolheu milhares de pessoas que durante dias fizeram percursos a pé dos lugares mais recônditos da ilha. A festa começou às 18 horas locais (menos oito em Lisboa) com uma missa presidida por D. Ximenes Belo que abençoou a bandeira de Timor-Leste. Foram longas as cerimónias, houve discursos oficias - com Xanana a apelar à tolerância e à reconciliação - e até um filme com toda a história de Timor-Leste, desde os tempos do colonialismo português à invasão indonésia, passando pelo massacre de Santa Cruz.

O momento simbólico foi o arrear da bandeira das Nações Unidas que, 15 minutos depois, daria lugar à bandeira de Timor-Leste. O arquipélago passaria a ser um país a partir desse momento.

Nesses 15 minutos ouviu-se Freedom e Xanana Gusmão foi oficialmente empossado presidente da República de Timor-Leste. Houve aplausos no final do hino e no içar da bandeira. Mas foi tudo contido. O silêncio era ensurdecedor, arrepiante. Os timorenses ajustaram contas com o passado e choraram em silêncio.

No vasto recinto de Taci Tolo, onde estavam milhares de pessoas, o silêncio era tão profundo que se podia ouvir o ecoar dos passos dos ex-combatentes das Falintil que transportavam a bandeira de Timor-Leste. Tá-tá-tá-tá-tá...

O som daquelas botas alojou-se no cérebro, no coração. E nunca mais se esquece.

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