Vamos então não falar dos e-mails

Futebol, então, hoje é dia disso. Mas deixem-me recuar mais de um século, para um jantar realizado a 5 de abril de 1907, em Lisboa. Era de homenagem e tinha menu exquis. Exquis não quer dizer esquisito, mas delicado, e uso a palavra francesa porque a ementa está recheada de palavras inglesas e a história é perdidamente portuguesa. O jantar era sobre futebol, cosmopolita, pois.

O menu diz que havia free kick, como então se chamava aos livres. E seguia em latim, língua mãe do foot-ball. Havia assado com puré de penalties. E havia dribblings, que basta pronunciar alto para reconhecermos conversa de campo da bola. Um referee e linemen, com apito e bandeirinha. Citavam-se um goal-keeper e um Levy, os dois homenageados.

Manuel Mora, o guarda-redes, ia emigrar para a América do Sul. E Fortunato Levy, o defesa-direito, ia regressar ao seu Cabo Verde. Ambos jogadores (perdão, players) do Sport Lisboa (SL), o antepassado direto do Sport Lisboa e Benfica, clube que seria criado no ano seguinte. Quer dizer, Mora e Levy, por um ano, já não alinhariam no SLB, mas pertenciam à alma que forjou o clube, como veremos adiante.

No menu, um desenho com um guarda-redes e um colega de equipa, Mora e Levy, que se distinguem só pelas grandes luvas do primeiro. O equipamento é o mesmo, camisola escura que se adivinha encarnada, com golas e punhos brancos, calções brancos e botas que envolvem os tornozelos. Ah, se vos interessa, Mora é branco e Levy, com pele escura e uma carapinha separada por um risco ao meio, não o é. Companheiros. Ano, relembro, 1907.

Fortunato Monteiro Levy, então com 19 anos, iniciava uma tradição que iria levar um clube à glória europeia. E não me refiro às taças europeias conquistadas pelo SLB, mas à glória social, cultural, histórica, o que quiserem, de na década de 1960, quando eram raros os futebolistas não brancos a jogar na Europa, o Benfica ter um mulato a comandar - o eterno capitão Mário Coluna. Os espectadores dos estádios europeus - mesmo não ouvindo das bancadas, e se ouvissem e não compreendessem a língua - percebiam a deferência com que os futebolistas, brancos como Simões, ou negros como Eusébio, pediam ao “patrão” Coluna para marcar um livre.

Dir-me-ão, mas o Levy não era do Benfica, era do Sport Lisboa. Mera formalidade, o SL, meses depois do tal jantar, iria fundir-se, em 1908, com o Grupo Sport Bemfica (respeitem as relíquias, com “m”) e constituir o Sport Lisboa e Benfica - o Benfica de hoje. Esse estado de espírito, o viver à Coluna, único no mundo europeu há 60 anos, pertence-nos, como se prova que há mais de um século, havia o mulato cabo-verdiano Fortunato Levy.

E não se esgotavam, então, em Levy os atletas não brancos do clube. Naquele 1907 do jantar, o Sport Club entrou em crise, perdeu grande parte dos seus jogadores e só pelo arreganho de três futebolistas - Cosme Damião, Félix Bermudes e Marcolino Bragança - se partiu para a fusão com o Grupo Sport Bemfica e se criou o Benfica atual. Marcolino Bragança era um mulato são-tomense.

Trinta anos depois, o duelo que deu ao futebol a hegemonia no gosto dos portugueses, substituindo o ciclismo, foi a rivalidade entre o sportinguista Fernando Peyroteo, branco angolano, e Espírito Santo, negro nascido em Lisboa. Cruzamentos que não eram coincidência mas já estavam na nossa genética social. Como uma simples ementa de jantar de homenagem anunciava no princípio do outro século.

O cabo-verdiano Fortunato Levy, neto de judeu sefardita português, voltou para a sua ilha de Santiago. Foi sócio da casa comercial fundada pelo pai, Levy & Irmãos, e, em 1913, foi administrador da cidade da Praia. O mulato são-tomense Marcolino Bragança foi para Luanda. Assistiu lá ao começo da amizade entre Peyroteo, branco de África, e Espírito Santo, negro lisboeta, que viria a ser, na década seguinte e noutro continente, a rivalidade fraterna já relatada. Marcolino morreu em 1971, em Luanda, onde foi visitado por uma equipa do Benfica em digressão, com Coluna e Eusébio.

O outro dos homenageados no jantar de há 110 anos de que se serve esta crónica, Manuel Mora, luvas tiradas, fez-nos descobrir o grande artista que era, pintor e aguarelista, discípulo de Roque Gameiro. Não ficou na Argentina, destino inicial, foi para o Rio, onde fez carreira. Talvez os trabalhos mais notáveis de Manuel Mora tenham sido as capas de O Cruzeiro, a mais importante revista brasileira do século XX. A capa da primeira revista, em 1928, é dele. Mas o seu tema preferido, que ilustrou em cartões, era o cruzamento de povos, o Brasil. Afinal, o assunto de que temos estado a falar.

Futebol é: Ronaldinho Gaúcho, nome grande, dentes maiores e ar de ingénuo, a marcar um livre. À frente, a poucos passos, uma barreira de gigantes. Hipótese de golo só duas nesgas em cada canto, feito pela trave e postes da baliza - mas até pequeninos buracos o guarda-redes poderá tapar, basta adivinhar o lado do remate. O falso ingénuo corre para a bola, a barreira salta em uníssono, anulando as tais duas exceções. E é golo. Ronaldinho chutou a bola, com delicadeza, por baixo dos pés que sobem em grupo... O futebol, pois, pode ser científico: a nanoprecisão da velocidade da bola, calculada (como? onde?) em função da propulsão para cima da barreira e da avaliação do tempo de regresso dos pés adversários à terra.

O rapaz com cara de parvo produziu mesmo aquela maravilha? Sim, o estádio (estádios, Ronaldinho fez isso várias vezes) confirmou com gritos de alegria ou mãos levadas à cabeça em desespero... Futebol pode ser uma bela sabedoria. E futebol pode também ser essa coisa ordinária, tristeza do povo, roubos de árbitros e e-mails, discutido entre cínicos e/ou desonestos.

Mas hoje apeteceu-me falar de outro futebol. Nem de Ronaldinho, que foi coisa para ver e calar (gritando, eventualmente), nem do segundo, por decência. Apeteceu-me o futebol que nos conta.

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