Uma inveja tremenda e calada de Bruno Nogueira

Há dias assim, o presente atropela-nos - aconteceu-me neste 25 de Abril. Na semana anterior eu vivera dias angustiantes. Aproximava-se a comemoração e uma daquelas tão portuguesas incapacidades de pôr em prática uma boa causa estava a descambar para o fiasco. Mais grave ainda, a causa não era só boa, era esplendorosa, portanto a mínima beliscadura era pior do que um crime, era um erro.

O dia da liberdade devia ser celebrado no Parlamento, isso para mim era indiscutível. Porém, os organizadores da celebração não estavam a ter em conta que era necessário cuidar do parecer. Se o dever de celebrar se impunha - porque nas crises é que a democracia mais se deve mostrar -, havia uma aparente contradição pública que devia ser explicada. Os portugueses tinham sido confinados por razões sanitárias, obrigados a viver isolados e mais cuidadosos. Isso era em benefício deles, claro, mas também obrigando-os a um custo. Logo, os mesmos cuidados deviam ser evidentes quando cabia a vez aos políticos.

Os organizadores, Parlamento e PR, não perceberam logo a obrigação de se explicarem bem. Propuseram um modelo de cerimónia com gente a mais, nem tanto a mais que descuidasse no perigo para a saúde dos que iriam ao Parlamento. Mas a mais porque não desarmava a inquietude de todos os outros portugueses ausentes. Felizmente a polémica alertou os organizadores. Os números foram-se corrigindo e, no sábado, a gente que estava em São Bento, notoriamente, não punha em risco a saúde pública.

Nas vésperas, angustiado, como já disse (e estava mesmo), publiquei aqui no DN uma crónica. Nela expunha propostas para celebrar o 25 de Abril em São Bento, tal como devia ser, sem dar razões de alarme para alguns portugueses. Todas as minhas ideias repousavam no valor simbólico do dia. E, de caso em caso, de símbolo em símbolo, eu mostrava como o melhor do hoje que vivemos havia bebido naquela madrugada salvadora...

Pois bem, se passei um dia tranquilizado pela celebração que acabou por ser, entrei neste 25 de Abril com uma sensação singular. Ao aproximar da madrugada do grande dia, fiz-me espetador de Bruno Nogueira, no seu vídeo ao vivo (chama-se assim?), no Instagram. E vivi o humorista a receber a cara rugosa e a voz partida de Eunice Muñoz. Recordaram ambos a última vez em que estiveram juntos, com ela declamando Abril. E tudo numa conversa, tão insubmissa, sobre palavrões.

E vivi Bruno Nogueira a chorar: ouviam-se os passos marchados da Grândola e o artista de rua Vhils, cabelos em pó, com um martelo perfurador esculpia em direto, numa parede de sua casa, a cara bela de José Afonso. E apareceu-nos o ator Nuno Lopes, com uma voz que não tem mais a emoção que sempre espalha, que cantou e dedilhou à viola "E Depois do Adeus." E o músico Filipe Melo arrastou-me, "Traz Um Amigo Também", para o dia celebrado, juntos... Símbolos em ação.

E há que falar de mim. Eu tinha acabado de publicar no jornal uma crónica sobre símbolos. Escrita com letras e palavras alinhadas, ideias. Falei do que fazer. E outros maravilhosamente faziam! Em direto, ao vivo e juntos. Extraordinário mundo que agora podemos fazer.

Confesso, senti-me aquele notário que antigamente sempre havia um em vila da província. Do reviralho, pontificando no Café Central sobre a democracia que um dia havia de vir. Ainda naquela quarta-feira, 24 de abril, à tarde, à mesa do café, eu havia dito ao dr. Gualter e ao farmacêutico o que se tinha de fazer... "Falhámos no final da Segunda Guerra, falhámos com o Delgado, mas vocês vão ver!" Conversa... Na manhã seguinte, 25 de Abril de 1974, na mesma mesa do café, estávamos derreados de prazer com o que se passava em Lisboa. Invejando os militares revolucionários.

E hoje, confesso, estou com uma inveja tremenda e calada de si, Bruno Nogueira.

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