Trump, o grande educador

O diretor do liceu de Death Creek, no Arkansas, ouvia o candidato a professor. Este queria dar Geografia mas para isso não havia lugar naquela escola. O último vago fora ocupado pela senhora Williams, 55 anos, cansada e que deixara de tomar tranquilizantes uma semana antes de fazer aquele escândalo na reunião de professores para arranjar os horários pretendidos. Exatamente os de Geografia. O diretor não queria ver repetida a cena de gritos da senhora Williams. O escarcéu pôs os corredores em pânico e levou a um telefonema para a estação televisiva local anunciando mais um tiroteio em escola...

O diretor lembrou-se desse dia aziago. O conselho de professores, cansado dos berros, já tinha concedido as horas exigidas pela senhora Williams, quando se ouviram sirenes e chegaram os carros da polícia. "Tem graça, a tipa conseguiu o que queria em menos de 8 minutos...", deu-se conta o diretor. Desde um célebre discurso do presidente Trump todos os americanos sabiam que a polícia demorava 8 minutos para chegar ao massacre numa escola. Naquele dia, porém, como foi fake, não ficou confirmado que os malucos faziam os massacres escolares em três minutos, como dissera Trump.

Em todo o caso, foi a lembrança das palavras do presidente que alertou o diretor para um pormenor no candidato. Uma das pálpebras tinha espasmos. Isso e o discurso de Trump fizeram-lhe luz: "Esteve em Cabul, foi?" O candidato respondeu: "Não, pior, nas zonas tribais..." Também a mão esquerda tinha espasmos. O diretor estivera no Afeganistão, servira nas enfermarias e fartou-se de ver marines com stress pós traumático. "Homem, porque não disse logo? O lugar é seu." O candidato voltou a tremer, agradeceu e perguntou sobre a matéria a dar. O diretor tranquilizou-o: "Traga é o seu rifle M16A4, que os cunhetes de munições são fornecidos pela escola."

Foi assim que o jovem professor Matt Trigger arranjou emprego no liceu e a senhora Williams voltou aos Trabalhos Manuais, jurando que um dia destes ia deixar outras vez de tomar tranquilizantes e haviam todos de ver como era... O liceu foi dos primeiros do norte do Arkansas a atingir a meta trumpiana dos 20 por cento de professores "com treino militar" e armados para que os malucos dos massacres não se deixassem tentar por uma gun free zone, um liceu desarmado.

Na verdade, aquele liceu não atingiu logo o top do ranking das escolas com melhores fuzis semiautomáticos. Só 23 professores se tinham oferecido para ensinar armados, quase todos por causa do "pequeno bónus" prometido por Trump. Outros eram menos venais, como o professor de Desenho que punha um pé na cadeira quando desenhava elipses no quadro negro: encantava-se por saber os olhos das crianças vidrados na arma que ele escondia no tornozelo. Era um pequeno revólver com punho de madrepérola, talvez pouco útil para defrontar o matador que por lá aparecesse, para isso havia os fuzis dos colegas, mas precioso para a artística bala final.

E ao número inicial, foi preciso ainda descontar um professor de Matemática que quis trazer um tanque Sherman, da II Guerra Mundial. Não foi aceite, não pela bizarria mas porque o Sherman obrigava a aulas no parking e as lagartas danificavam o asfalto. A associação de pais achou muito perigoso para a suspensão dos automóveis.

Mas a chegada do professor Trigger acabou por inflacionar os candidatos a professores armados. O ex-fuzileiro naval começou por ser dos mais cuidadosos. Guardava o M16A4 num cacifo e, nos exercícios preventivos de massacre, se mandava um miúdo buscar a arma, mandava uma garota às munições, num segundo cacifo, do outro lado do liceu. O professor Trigger protegia as crianças das tentações do gatilho. Cronometrada a experiência, o professor só ficava com a arma pronta a disparar ao fim de 11 minutos. Mas ele, para guardar o emprego, nunca disse ao diretor que os atrasados polícias continuavam a ser mais rápidos que a solução docente.

O pior é que o antigo marine interiorizou esse insucesso escolar, passou a tomar mais benzodiazepinas, o que agravou o stress pós-traumático. E isso via-se quando ele ia almoçar à cantina, agora eram as duas mãos, além da pálpebra, que tremiam. O pessoal da cantina inquietou-se, contactou o seu congressista em Washington, por sinal hispânico e republicano, que falou com o presidente. Um tweet de Donald Trump anunciou então que os da cantina também podiam entrar no armamento escolar, embora só "até 10 por cento". Apesar da percentagem que os menorizava em relação aos docentes, os chicanos da cantina aproveitaram a medida porque a explicação de Trump, "um massacre pode acontecer à hora do almoço", enaltecia sua função social.

Um dia, a senhora Williams já ia há duas semanas sem tranquilizantes, apareceu aos berros na escola e com um rifle AR-15 nas mãos. O professor Trigger prescindiu do garoto, correu ele ao cacifo do M16A4 e ao ir para o cacifo das munições, saíram-lhe ao corredor os da cantina. Pensando que o marine tinha endoidado de vez, mataram-no. Vieram os 22 professores armados e houve uma batalha campal e de classe no liceu, de 15 segundos. A senhora Williams, que era só fita, pousou a arma sem dar um tiro, até porque o posto de Geografia já estava vago de novo. Balanço, 35 mortos, nenhuma criança.

O presidente Donald Trump chamou os pais dos estudantes à Casa Branca. Sentados em círculo, ele inclinou-se com um pequeno papel na mão. Este tinha quatro pontos e Trump enumerou três. "Primeiro, como eu disse da outra vez, os massacres escolares duram menos de três minutos." Brandiu o papel: "Segundo, com o meu método não há mortes de crianças." E fez um careta: "Da outra em vez enganei-me, tinha escrito esta mnemónica: eu ouvi-vos."

E o autista saiu porta fora, desprezando os convidados. As televisões filmaram o papelinho. No fim dizia: "4) Mostrar-lhes que eu só tenho de me ouvir a mim próprio. Sou o maior."

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