Trump, o caso clínico, e a América, a internar

Semana decrescente. Se é a tendência que conta, a campanha de Hillary Clinton tem interesse em que a semana passe depressa. Titula Nate Silver, o guru das previsões do site FiveThirtyEight: "Com Comey ou Não, Trump continua a Estreitar a Distância para Clinton". Quer dizer, ainda não se pode dizer se as sondagens já são influenciadas pelas declarações do diretor do FBI James Comey, mas Trump avança. Quer dizer, ainda mais dramaticamente: na pior das hipóteses, se a intervenção do FBI contar, as eleições já não são favas contadas para os democratas. Há 15 dias, o site dava 88% de probabilidades de Clinton ganhar, ontem, dava 75%. Os critérios de Nate Silver são complexos, não vale a pena dar os pormenores, o importante é dar conta da tendência: com os mesmos critérios, o salto de Trump é preocupante.

O site Politico patrocinou uma sondagem feita no sábado e no domingo - já depois da inesperada e bombástica declaração do diretor do FBI (uma autêntica "surpresa de outubro", como os americanos chamam ao escândalo de última hora nas presidenciais). A separação nacional entre os dois candidatos era de três pontos. O que determina as presidenciais americanas são as variações dos estados dançarinos e, portanto, é mais importante conhecer a posição de alguns deles (Pensilvânia, Florida, Ohio, Carolina do Norte...) do que os totais nacionais. Mas a comparação dos resultados nacionais não deixa de ser indicativa: ora, há dez dias, depois dos três debates, a diferença Clinton-Trump era de seis pontos.

Acontece, porém, que na quinta e na sexta-feira passadas, antes de ser conhecida a declaração de James Comey, o Politico encomendara também uma sondagem e esta já anunciava a mesma diferença de três pontos entre os dois. Quer dizer, "a bomba de Comey mudou poucos votos", titulou o Politico. É uma maneira de ver o copo meio cheio. Meio vazio é pensar que a interferência do FBI - porque se trata mesmo duma - se vier a ter efeito estimulará o avanço indesmentível de Donald Trump que vem das últimas semanas.

Qualquer que seja o resultado final, fica já a perceção de que escapou à maioria dos analistas o "fenómeno Trump". Não se trata de contemporizar com o homem, muito pelo contrário. Não se encontrou foi antídoto à baixeza do candidato e ao descuido da sua preparação, porque isso não lhe interessava; ao desprezo pelos cuidados mínimos que um político ou qualquer agente social (polícia, professor...) tem de ter, porque isso é conotado com o "politicamente correto" dos do establishment; à assumida provocação e insulto, porque a sociedade está educada para indignação barata.

Barack Obama pretendeu desmontar as mentiras de Trump, filho sem escrúpulos de rico sem escrúpulos, ambos racistas, capitalista que engana quem com ele negoceia, que foge a pagar a quem trabalha, que ganha com as falências das suas empresas, cidadão que se vangloria de fugir aos impostos, aldrabão assumido, sem compaixão pelos fracos, abusador dos próximos, sobretudo quando são próximas - e apresenta-se ele como campeão dos desfavorecidos! "Come on...", exclamou Obama, dando a entender que Trump não enganava ninguém. Pois, pelos vistos, engana. E se enganar a América daqui a oito dias, é uma desgraça para o mundo.

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