"Sou útil inda brincando"

Se bem se lembram - caramba, foi ainda ontem, tem oito dias! - a última guerra política aconteceu-nos por causa de uma palavra. Um jornal titulou: "Governo chocado com discurso de Marcelo". E o Presidente ripostou com artilharia pesada como a Grosse Bertha: "Chocado ficou o país", disse ele ao primeiro microfone que lhe estenderam. Não me admirou a devastação que simples palavras cruzadas, de cá para lá e de lá para cá, podem causar. Afinal, diz-se que a primeira das guerras do Iraque, com o Bush pai, aconteceu por falta de uma palavra. Em 1990, quando a embaixadora americana foi tomar chá com o ditador Saddam Hussein, este sugeriu que ia invadir o Kuweit - e ela continuou com sorriso impávido. Por falta de um simples "não!", há mais de um quarto de século que o Próximo Oriente vive numa terrível alfétena.

Lá está, eu não me importaria de sofrer uma crise se ela tivesse sido à custa de uma alfétena, como a gente comum chama à discórdia e à guerra. Mas fico chocado com tanto banzé por causa do corriqueiro "chocado". Os grandes confrontos políticos só se justificam por grandes causas. Por exemplo, a razão mais válida (na verdade, única) que ouço para a independência da Catalunha é o inalienável direito de um povo em poder livremente acabar as frases a meio (como tão bem explica, no Instagram e em catalão, o Herman José a imitar Puigdemont).

Ainda há poucos anos, Freitas do Amaral disse na Assembleia da República: "Que topete!" Fiquei agradecido ao cavaleiro libertador da palavra perdida. Topete estava sequestrado pelo nosso desgosto em falar rico. A palavra desusada foi dita, ficou relembrada e voltou, como deve ser, ao limbo onde moram as coisinhas preciosas. Sim, porque pior que sepultar uma palavra é recuperá-la e abusar dela até à náusea. Suspeito que o sucesso recente do chocho "chocado" é que este pretendeu conduzir a uma lógica insidiosa: chocado-choque, choque-carrinho de choque, carrinho de choque-geringonça... E lá apareceu, pela enésima vez, geringonça, um belo achado quando foi dito por Paulo Portas e, hoje, não mais que aborrecido bocejo. Relembrada para encurtar o tempo de um governo, a palavra geringonça acabou por se queimar antes do objeto que ela pretendia significar.

Chegado de Luanda, ao passear com um conterrâneo mais conhecedor de Lisboa, perguntei-lhe o caminho para irmos para o Bairro Alto. Ele, que era ex-seminarista, como o personagem Azulinho imortalizado por Luandino Vieira - jovem do mato com português engravatado -, apontou a rua da Escola Politécnica: "O mais curial é por ali." A vida separou-nos pouco depois, o que me valeu a boa recordação que guardo do meu Azulinho. Talvez uma convivência mais assídua me fizesse cansar dele e do seu vocabulário castigado. Como o prazer que tive e tenho em ouvir Camané a cantar o fado Lúbrica, com poema de Cesário Verde. Camané e Cesário encantam-me, mas "ó cálida mulher", "lascivas frases", "olhos tão nefandos", "vícios execrandos" e "vívidas centelhas" é para ser saboreado como o humor subtil, merece colher de chá. O fado Lúbrica não é curial que se consuma em demasia.

As belas palavras não são para ser abusadas com nada, sobretudo em rimas fáceis ou distorcidas. Chico Buarque de Holanda, em Mulheres de Atenas, diz destas que esperam os maridos: "Quando eles se entopem de vinho/ Costumam buscar carinhos/ De outras falenas"... Falenas? Lá está rima metida a martelo. Sigam, porém, a canção e o caminho dos maridos: "Mas no fim da noite, aos pedaços/ Quase sempre voltam pros braços/ De suas pequenas/ Helenas". Atenas, pequenas, Helenas, tudo rimando, e até aquele abracadabrante "falenas"... Ora, este termo culto mostra-nos que a canção é flor cuidada que nos é oferecida: falenas são borboletas noturnas. São o pouso transitório dos maridos de Atenas, antes de voltarem para as suas mulheres...

Mas porque escolheu Chico Buarque um termo abracadabrante, certíssimo mas difícil, para fazer harmonia com as palavras simples, Atenas, pequenas, Helenas? Pois, justamente porque Chico Buarque de Holanda rima com Aurélio Buarque de Holanda, seu pai. Não pai de conceber, era parentesco só de primo mais velho, mas pai-professor de lhe ensinar amor pelas nossas palavras. A geração de Chico Buarque bebeu português difícil numa popular secção, o "Enriqueça o Seu Vocabulário", de Aurélio Buarque de Holanda, publicada na revista Seleções do Reader"s Digest.

No Passeio Público do Rio de Janeiro, no bairro da Lapa, há um antigo chafariz em ferro, com um menino de cuja mão brota a água. No peito, uma faixa diz: "Sou útil inda brincando." Foi a inspiração para Aurélio Buarque de Holanda, professor do ensino secundário e autor do dicionário a que emprestou o nome, o Aurélio. Ele criou uma página na célebre publicação do imperialismo americano, para cultivar o amor pela língua portuguesa. Desde 1950, cerca de 2000 mil palavras foram ali apresentadas como um jogo. A palavra difícil, abracadabrante, por exemplo, propunham-se quatro soluções, todas elas próximas, para serem confundidas, mas só uma sendo o significado exato. Abracadabrante não quer dizer pavoroso, nem grandioso, nem imenso. Mas sim: misterioso, extraordinário, excêntrico, singular. E Aurélio oferecia-nos uma citação de Fialho de Almeida para nos darmos conta daquele perfume.

Palavras difíceis, só das que dão desafio, para que nós fizéssemos por merecer a bela língua. Assim, fortalecidos, ficávamos preparados para não nos chocarmos com ninharias.

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