Sobre hoje e todos os dias

Há 44 anos, 1 de maio de 1974, hoje exatamente cumpridos, regressei a Portugal, entrando pela fronteira ferroviária de Vilar Formoso. Era um comboio de exilados políticos, ainda com dúvidas sobre o que realmente tinha acontecido. Dias antes, em Paris, já depois de se saber dos acontecimentos em Lisboa, tínhamos ocupado o consulado-geral português e exigido ao cônsul um bem que muitos de nós nunca tivera: passaporte. Comboio parado, dois homens fardados entraram na minha carruagem, ordenaram para não se sair dos lugares, contaram-nos e disseram para alguém recolher os documentos. Fui eu buscá-los, todos novinhos. Um amigo, professor em Vincennes e ex-padre, que fora para França legalmente, entregou-me o seu, sussurrando: "Está caducado." Escondi-o entre as dezenas de outros, brilhantes. Entreguei o pacote a um dos polícias. O olhar profissional caiu, logo, no passaporte escondido. Tirou-o do molhe, abriu-o e disse ao colega, baixo: "Está caducado." O colega pegou nele, foi às datas e voltou a pôr o passaporte no meio dos outros. Disse: "Mas não está muito caducado", e ambos passaram a outra carruagem. E eu soube nesse momento que tudo tinha, mesmo, mudado... Poucos anos antes, em 1972, durante a visita de Nixon à China, o chefe da diplomacia americana, Henry Kissinger, estudioso dos grandes acontecimentos mundiais, perguntou ao então primeiro-ministro chinês Chou En--Lai o que pensava da Revolução Francesa. Chou En-Lai respondeu: "Ainda é cedo para saber." Kissinger ficou encantado pela noção intemporal do milenar grande império chinês. Ainda cedo, algo acontecido dois séculos antes, em 1789!... Mais tarde, soube-se pelo tradutor que Chou En-Lai se referia ao então ainda recente Maio de 68, a revolução francesa que, agora, comemora o seu meio século. Em 1974, eu era um jovem empolgado e, num breve instante, com a frase de um polícia atemorizado, acertei na natureza de uma revolução. Em 1972, dois dos mais sábios políticos do século XX baralharam-se sobre um assunto que dominavam como ninguém... Juntando os dois episódios, concluo que estamos sempre tão próximos de não sabermos do que estamos a falar quando estamos a falar.

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