Sarkozy de vaudeville (2)

Pronto, o ex-presidente Sarkozy foi mesmo acusado de ter recebido ilegalmente fundos líbios durante a campanha eleitoral de 2007. Pelos vistos, Sarkozy não foi grato: em 2011, ajudou a derrubar o líder líbio Muammar Kadhafi, seu benfeitor. Nesse ano, sem aparente relação, o semanário Journal du Dimanche publicou uma entrevista com Robert Bourgi, conselheiro de presidentes africanos e abridor de portas para os interesses de Paris. Na entrevista, Bourgi falou de um lado sigiloso dessa relação. Com minúcia, ele descreveu várias idas à Câmara de Paris e aos palácios do Eliseu e de Matignon, durante anos, carregando malas de dinheiro. Ainda não eram de Kadhafi, mas de líderes da África negra. O então maire de Paris Jacques Chirac a sopesar uma mala ("hoje isto vem pesado")... O primeiro-ministro Villepin nas escadarias do átrio de Matignon, a receber três patas de elefante recheadas de notas... Surpreendentemente, essa entrevista não levou a um prudente distanciamento por parte dos dirigentes gaullistas. Cinco anos depois, François Fillon, que ganhara a Sarkozy as primárias para candidato gaullista às presidenciais de 2017, recorreu a Bourgi para uma tournée por África. Pouco antes dessa campanha, Fillon ousou aceitar três fatos oferecidos pelo sulfuroso amigo. Esse "facto político" acabou em escândalo e contribuiu para a derrota do partido gaullista nas presidenciais. Na véspera da eleição, Bourgi voltou a dar uma entrevista explosiva, desta vez no canal CNews. Confirmou o que dissera anos antes ao Journal du Dimanche e, pormenor acrescido, disse que o ex-presidente Sarkozy estava na origem da história dos fatos dados a Fillon. Truque para minar um adversário interno... Já não era um Sarkozy shakespeariano, como lhe chamei ontem, mas mais de teatro de vaudeville. E potencial ator do tribunal de polícia.

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