Procura-se um "artilugio" (geringonça) para Espanha

A entrada no Parlamento espanhol da extrema-direita (Vox, de nenhum deputado passou para 24) foi impetuosa. Mas, pelas vítimas deixadas à porta, essa vitória foi feita à custa do PP, que durante décadas partilhou o poder em Espanha, à vez, com PSOE. Agora, o PP caiu para metade dos seus votos tradicionais e ficou só a um punhado mais de deputados, 66 contra 57, do partido que lhe disputa a mesma área política, o Ciudadanos, de centro direita.

Quer dizer, na sociologia de votantes, o Vox existia dentro do PP mas ao autonomizar-se, radicalizando a direita, só conquistou uma ala dos seus e tornou o todo muito mais fraco: a soma do PP com o Vox (nem 100 deputados...) é muito inferior ao patamar mínimo a que o partido unido por Aznar e Rajoy habituou os espanhóis. O lema do Vox, a "reconquista", com a sua evocação de cruzada franquista, prometido pelo líder radical Santiago Abascal ficou aquém das esperanças de uns e dos medos de muitos mais.

Assinale-se, então: o Vox está nas Cortes Gerais com um grupo forte mas sem o papel determinante que se esperava dele. De imediato só se antevê o que ele fará à direita espanhola: o PP, acicatado por duas forças montantes nas suas bermas, os moderados do Ciudadanos e os extremistas do Vox, será capaz de resistir à tenaz? Se a deriva da base militante e de votantes do PP for para o Vox é porque algo correu mal nas consequências do resultado das eleições deste domingo. Com veremos adiante.

Estas eleições acabaram por não dar, como aliás se esperava, um resultado impositivo: o PSOE ganhou destacado, mas precisando de pactuar para governar. O líder Pedro Sánchez já tinha um historial razoável de dado como acabado mas, de novo, ressuscitou. A surpresa foi a jornada ter-lhe dado a possibilidade do livre arbítrio. Com 123 deputados, PSOE fica a 51 da maioria absoluta e tem de fazer arranjos com outras forças. Espécies diferentes de arranjos...

A solução aritmética mais fácil é pactuar com Ciudadanos (57 deputados) e, até, fazer uma coligação (fórmula rara nos costumes espanhóis). Houve recentes conflitos entre Sánchez e Albert Rivera, naturais entre líderes que disputam áreas políticas que se atropelam (do centro-esquerda ao centro direita). Mas são ambos moderados e, sobre a questão política essencial da Espanha contemporânea, a sobrevivência da unidade do país, estão próximos. Ontem, na festa da vitória, os adeptos socialistas gritaram várias vezes um "não!" rotundo contra o Ciudadanos, e Sánchez respondeu-lhes: "Compreendi-vos." O que diz pouco ou quase nada se tiver, mesmo, de ser...

Outra soma possível é o PSOE juntar-se ao Podemos (42 deputados), cujo líder, Pablo Iglésias, que tem amaciado as suas posições mais radicais, disse ontem estar disposto a fazer uma "governo de esquerda" com os socialistas. Problema maior, a soma dos dois partidos (165) precisa de pozinhos de outros partidos... À partida seria um problema bicudo porque a tal maioria absoluta (176 deputados) só seria possível obter-se com os deputados da ERC (15), independentistas catalães, cujo líder Oriol Junqueras está a ser julgado no processo da recente tentativa de secessão da Catalunha. Seria complicado ao PSOE aliar-se aos independentistas e daria um grande jeito ao Vox para uma próxima tentativa na "reconquista"...

No entanto, na segunda volta para a aceitação do novo Governo pelos deputados, com abstenções dos independentistas (pouco interessados em dar força ao Vox), bastará uma maioria simples de "sins" contra "nãos" para investir Pedro Sánchez como primeiro-ministro. Enfim, com algum engenho será possível conseguir um "artilugio", como se diz geringonça em espanhol.

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