O espião russo e os recreios

O The New York Times escreveu sobre escolas primárias e jardins-escolas em Inglaterra onde os novos recreios têm arbustos espinhosos, baloiços de pneus, poços de lama, banca de trabalho com martelo e serra... Há riscos e são assumidos: os miúdos ficam a saber o que é um espinho. E a ideia é essa: trazer o risco de volta para as escolas, para reinventar a resiliência. Uma sociedade que responde às bombas terroristas com cartazes infantis - "Paz!" - estava mesmo a precisar de vacinas de realidade logo nos verdes anos. Abaixo os jardins-celestes, viva os jardins-de-infância a preparar gente para o mundo tal como ele é. Entretanto, na mesma Inglaterra, o caso do ex-espião russo, talvez mandado matar por Putin, é visto pela opinião pública com confrangedora ingenuidade (na pátria do MI5 e MI6!). Como se não fosse um mundo paralelo. Mais realista é Theresa May a fingir a indignação, mais para os britânicos do que a pressionar as autoridades russas. Com estas há de chegar-se a um acordo como o que, afinal, trouxe a vítima para a Grã-Bretanha. Sergei Skripal era espião russo, passou a trabalhar para os britânicos, denunciando dezenas de colegas seus. Aliás, que foi feito destes? Adiante... Desmascarado em Moscovo, Skripal foi preso e condenado pelos russos. Em 2010, trocado por dez agentes russos apanhados nos Estados Unidos, foi viver para Inglaterra. O que levou Moscovo a envenená-lo há de explicar-se pelas razões esquisitas dos espiões. Em todo o caso, não há moral nestas coisas. A filha de Skripal também foi envenenada. No ano passado, John le Carré publicou Um Legado de Espiões, em que explica a morte da namorada d"O Espião Que Saiu do Frio (escrito 50 anos antes): dano colateral e necessário. Os garotos dos novos recreios britânicos talvez não cheguem a adultos a acreditar que a espionagem é um convite para tomar chá. Talvez um chegue a cínico e lúcido, como Le Carré. Boa, os livros de espiões são ótimos!

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