O Anjo Pornográfico

O brasileiro Ruy Castro vai hoje lançar em Lisboa a edição portuguesa de O Anjo Pornográfico, a sua biografia do brasileiro Nelson Rodrigues. Se fosse anúncio de cerveja poderia dizer-se: provavelmente do maior biógrafo da língua portuguesa sobre o maior cronista da língua portuguesa. Será na Fnac do Chiado, o que sugere uma proximidade. Desce-se a Rua Nova do Almada, vira-se à esquerda. Segue-se pela Rua da Conceição até ao cruzamento com a Rua da Prata e foi lá. Numa manhã do inverno de 1928, alguém à janela da mansarda pombalina viu o dono da Tabacaria chegar à porta, pensou na menina que come chocolates e arrancou uma obra-prima que cabia em duas páginas de jornal. Assim, num repente, uma obra-prima, abusando do tempo do patrão que lhe pagava para fazer traduções comerciais... - a Fernando Pessoa bastou-lhe o génio.

Esta tarde, meia dúzia de quarteirões atrás, uma só curva, e na tal Fnac vai falar-se de um género literário que obriga a conversa prévia com mais de 200 pessoas, centenas de horas com jornais e bibliotecas e fazer com datas mais contas do que Pessoa jamais fez em casas comerciais... As musas da poesia são representadas por liras e flautas; as da biografia, a haver, deviam ser representadas por uma gabardina de inspetor da Judiciária. Razão teve Aquilino Ribeiro, que quando lhe deu para as biografias dos príncipes de Portugal comportou-se como romancista e inventou mais do que pesquisou. E também o nosso talvez mais fecundo biógrafo, Mário Domingues, fez aos biografados o que o seu companheiro e amigo Reinaldo Ferreira, o Repórter X, fazia aos subterrâneos de Lisboa, escavava pouco e aviava tudo em folhetins.

Ruy Castro tem insistido em ir por biografias, e magníficas. Não foge ao suor mas ofereceu-se uns truques simples que permitiram que elas, sendo exatas e sabedoras, cheirassem a prazer. Em O Anjo Pornográfico, ao primeiro capítulo, Castro titula-o de "1912 - Pitangas amargas". Vão por mim, que as conheço da infância, nenhum cheiro marca mais do que o da pitanga. Aliás, é o próprio Nelson Rodrigues que o lembrou numa crónica, de 1967, rememorando, como quem se deita no divã do psicanalista: "Eu começava a inventar o mundo. Primeiro foi o mar. Não, não. Primeiro, inventei o caju selvagem e a pitanga brava." Sobre o prazer estamos conversados.

E quanto à data, que é a do nascimento do biografado (1912--1980), está lá para nos revelar um truque: Ruy Castro só escreve a vida de gente quando pode falar com testemunhos diretos, que deem conversa com estes que a terra há de comer mas ainda não comeu, pistas, enfim, cheiros. O Anjo Pornográfico foi originalmente publicado no Brasil há um quarto de século, o próprio Ruy Castro, também jornalista, ainda se cruzou com Nelson Rodrigues.

Depois, outro truque, comum nos três grandes biografados por Ruy Castro (Nelson Rodrigues, Carmen Miranda e Garrincha), todos cariocas como o autor. Na irrealidade, um é pernambucano, outra minhota, e o das pernas tortas, de uma vilória dos subúrbios do Rio, mas todos carioquíssimos como o autor. Que nasceu mineiro. Um brasileiro de raspão (escreveu o livro mais famoso com o nome do país no título, Brasil, País do Futuro, e matou-se no Brasil), o vienense Stefan Zweig, pode ter sido grande biógrafo de pessoas distantes e antigas (Maria Antonieta, Balzac, Fernão de Magalhães...), mas não estava tão interessado como Ruy Castro em fornecer-nos os cheiros de uma época e da cidade por eles vivida.

Não sem razão, o pano de fundo, moldura, cidade que junta as três biografias é ela própria biografada em vários livros do autor: Carnaval de Fogo (crónica de uma cidade excitante demais), Chega de Saudade (sobre a bossa-nova, filha de Ipanema), Ela É Carioca (sobre Ipanema), Flamengo: O Vermelho e o Negro (clube da cidade)... O Rio, pessoa, abraçado como quem ouve um samba-canção, com uma mão em cima do ombro e outra enlaçando A Noite do Meu Bem (é outro título sobre a maravilhosa não ficção que é o Rio de Janeiro).

E, truque decisivo, se o biógrafo não quer cair no pecadilho de romancear, escolhe autênticos heróis de romance para lhes contar a vida. Carmen Miranda, a mais famosa brasileira do século XX e que acabou em Hollywood, mas muito mais do que isso, a mais querida das mulheres da mais feliz das cidades, contada sem esquecer Olinda, a irmã, mais bonita e com melhor voz, a morrer no Caramulo, tuberculosa, aos 23 anos - no Caramulo cinzento e pedregoso, anos 1930, nos antípodas de Copacabana, onde Carmen era a rainha.

E Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha, sobre o mais amador futebolista que o futebol profissional jamais produziu. Alegria do povo e carrasco de si próprio, Mané, O Inajudável, como lhe chamou Ruy Castro, porque ajudado por muita gente mas por si, roído pela cachaça, levou-se à solidão. Aquele que, no Mundial de 1958, na Suécia, fintou um defesa russo, fazendo-o sentar-se no chão, pôs a bola sob a proteção da sola, deu a mão ao adversário para se levantar, voltou a fintá-lo e centrou... E passou o resto da vida a não dar a mão a si próprio.

Logo à tarde, pois, o lançamento de O Anjo Pornográfico, sobre uma vida que durou 25 anos a chegar-nos, depois de se ter consolidado entre nós a lenda da escrita de Nelson Rodrigues. Para ler com o lamento de não se ter sido Ruy Castro, que soube da lenda sentado no colo na mãe, que lia no jornal a crónica diária de A Vida como Ela É...

Certamente que não era a infância a mais apropriada das idades para saber do ciúme, do sexo, da morte. Mas é uma pitanga brava para nos justificar um deslumbramento pela vida fora. Bendito fascínio que nos legou esta biografia. A vida como ela foi, um romance trágico: uma família de jornais, o irmão que morre assassinado pela pistola de uma leitora indignada, o crime que acabou com o pai, a família que de rica passa à fome. E Nelson Rodrigues que se foi fazendo para uma escrita única.

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