No dia seguinte ao saber-se do impossível

A quase centenária The New Yorker (fundada em 1925) não sai 52 vezes ao ano, o que a faria semanal; sai 47, porque em cinco edições ela é quinzenal. É, pois, uma revista sofisticada, põe os leitores a pensar até para saber se é semana de ir ao quiosque ou não. Os textos, reportagens, muita opinião e crítica, insistem no estilo - e com sucessivas revisões, não vá uma vírgula a mais. Pequenos cartoons espalham-se pelas páginas, quase sempre sem terem que ver com os artigos vizinhos - servem para espicaçar o leitor, porque o querem acordado. Mas o que mais marca a revista são as capas. Há quem as colecione para fazer sonhar uma parede do escritório. Olha-se para essas capas como um gato, depois do pequeno-almoço, olha pela janela de um arranha-céus de Nova Iorque - o que, aliás, já foi capa da revista, assinada pelo francês Sempé.

Nesta semana, a capa que vai atravessar o grande dia da América e do mundo, a temida próxima terça-feira, dia 8 de novembro, fala sobre o day after, que já deu nome a filme de terror atómico. Mas as capas da New Yorker nunca gritam, são muitas vezes pastel ou aguarela nas cores, usam luvas nos argumentos, são quase nostálgicas. A desta semana fala das presidenciais, o dia seguinte, deduz-se, e mostra uma carruagem do metropolitano nova-iorquino, pela janela desfilam os tijolos brancos sujos do túnel, indo para a Rua 23. Um homem, de pé e de costas, agarra-se ao corrimão horizontal e o cartoon corta a metade uma mulher de grandes óculos escuros. No meio, sentado no banco corrido da parede da carruagem, um escriturário pousou a pasta e inclina o chapéu para o jornal que segura com ambas as mão e que o tapa. Nenhum dos três personagens mostra a cara. São meramente nós todos.

E é para nós que a primeira página do jornal fala. Aliás, grita, porque ele não é a sofisticada The New Yorker. E grita isto: "Oh meu doce Jesus, meu Deus, por favor, não." E: "Tudo menos isto." E: "Come on", como se diz, em desesperanto, "não quero acreditar!!!" É o que a The New Yorker nos anuncia para o dia seguinte, 9 de novembro.

A capa é assinada por Barry Blitt, colaborador antigo da revista. Ele tem feito várias capas sobre esta campanha presidencial - todas protagonizadas por Donald Trump. E é certamente a pensar nele - o extraordinário que é este Trump chegar à Casa Branca - que a capa foi feita. Logo que ele anunciou que se candidatava a candidato republicano, em julho do ano passado, Blitt mostrou que tipo entrava na corrida. Numa piscina aterrorizada, com Jeb Bush e Rubio assustados, um gordo de melena loura saltava para fazer um chapão nas águas.

Bons tempos, em que ainda se pensava que o homem era só um inofensivo garoto malcriado. Em fevereiro, o cartoonista já alinhava um punhado de notáveis presidentes americanos - Washington, Lincoln, os dois Roosevelt e Kennedy - num salão, consternados, frente ao televisor. Escutavam o incrível Trump. Só Ted Roosevelt, habituado à caça grossa, mantinha alguma calma. Em março, Trump, o mágico manhoso, faz de conta que serra uma caixa com um elefante (o símbolo do partido Republicano) e, oh!, matou mesmo o pobre paquiderme. Em outubro, a capa da New Yorker é uma miss loura, desfilando com a largura de cintura e coxas fartas, Donald em fato de banho e faixa, "Miss Simpatia", com os defeitos que ele de forma brutal não admite nas jovens concorrentes. E, na semana passada, desta vez com os dois concorrentes, a capa de Hillary e Trump, acompanhados pelos respetivos consortes: Bill Clinton e... Vladimir Putin.

E, agora, The New Yorker connosco, numa carruagem de metropolitano, atónitos pela probabilidade impossível: "Oh, não..."

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