Não há carnaval e pode haver quarta-feira de cinzas

Em 2008, em reportagem nas presidenciais americanas, em Charlotte, Carolina do Norte, acabei o meu texto com dois números cabalísticos: 364 e 174. Prometi explicação para mais tarde. Os números foram publicados num sábado, 1 de novembro, anterior à terça de dia de voto. Quando se conheceram os resultados, eram os números dos votos eleitorais de Obama e John McCain. Na verdade, não exatos porque a conta oficial acabou por ser 365--173, com um voto mudando de campo. No Nebraska - um dos dois únicos estados, com o Maine, em que os votos não vão todos para o vencedor do estado -, apesar de ter sido ganho por McCain, Obama ainda lhe desviou lá um voto. Em todo o caso, uma aproximação extraordinária, tendo em consideração as contingências eleitorais e as múltiplas permutações possíveis entre 50 estados, com número de votos variáveis, que vão de três (em vários estados) a 55 na Califórnia.

Na explicação, evidentemente, desdenhei dos meus méritos de adivinho, que não eram nenhuns, e revelei os autores daqueles dados: os sábios em sondagens políticas americanas Larry Sabato e Nate Silver. Durante toda a campanha eu apanhara o hábito de os ler, várias vezes ao dia, nos seus sites, o Crystal Ball (Bola de Cristal) e o 538 (o total dos votos eleitorais nacionais). Em 2012, Nate Silver "adivinhou" em todos os 50 estados e no distrito federal, na capital Washington.

Neste ano, por várias vezes já aqui invoquei os números de Nate Silver. Desta vez, ele está mais contido nas probabilidades. Na maioria dos estados dançarinos (aqueles que ora votam republicano ora votam democrata) as diferenças entre Hillary Clinton e Donald Trump são demasiado estreitas. Nas análises que o 538 fez das campanhas anteriores (as duas que segui com Nate Silver e que ele fez, ou no seu site ou para o jornal The New York Times), das sondagens ele interpretou probabilidades de vitória muito confortáveis para o vencedor: mais de 80 por cento. Isso, claro, não queria dizer que seria essa a diferença a separar os candidatos, mas a probabilidade de ganhar. Neste ano, por duas vezes, Nate Silver já chegou a dar a Clinton 88 por cento de probabilidades de vitória. Mas ontem dava-lhe 64,6 por cento, contra 35,4 para Trump. Mais ou menos dois terços para ela, um terço para ele. Pode ser muito, pode acabar em nada.

E essa previsão abriu uma polémica com o site The Huffington Post. Este é um adepto de Hillary Clinton, ou melhor, é anti-Trump (nunca faz uma notícia sobre ele sem prevenir "Trump é um mentiroso contumaz, racista, misógino...", o que de resto é um conselho prudente). Provavelmente isso leva The Huffington Post a desejar números, mais do que lhes interpretar as exigências das indicações das sondagens: ontem, o site dava a Hillary 98,4 chances de ganhar. E fez um artigo dizendo que Nate Silver distorce as sondagens a favor de Trump. O guru respondeu no Twitter: "O artigo é idiota chapado e irresponsável."

Já vos disse o que devo a Nate Silver (um brilharete, em 2008, embora imerecido), mas gostaria, nestes dois dias, de estar já descansado, como não estou. Gostaria de estar a viver um carnaval com a certeza do palhaço (ontem, inventou-se um atentado falhado) já estar desmascarado. Em todo o caso, o importante é que quarta-feira não seja de cinzas e eu não seja obrigado a admitir que a prudência do 538 era justificada.

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