Memórias que nos lavam os olhos

Uma máxima de Graham Greene soava-me algures ao ouvido: se estávamos a relatar a dor humana, tínhamos o dever de partilhar

Não, John le Carré não é Graham Greene, não é tão grande, é só um bom escritor que também tem mundo e também foi andarilho. E não, ele não será Nobel de Literatura, porque recusa prémios, e seria demasiado injusto ganhar o que nunca calhou a Georges Simenon, quando este levou os seus policiais a uma complexidade bem superior aos livros de espionagem de Le Carré: O Homem Que Via Passar Comboios, do belga, é maior do que O Espião Que Veio do Frio. Mas Le Carré, de 84 anos, acaba de publicar O Túnel de Pombos (editora D. Quixote), o seu livro de memórias. Não é uma autobiografia, são histórias (38), independentes mas sempre com o autor dentro. E é tão bom.

É tão bom ler um bom escritor sobre uma vida real, por vezes cruzada com poderosos e famosos - almoça com Margaret Thatcher, no n.º 10 da Downing Street, roça a barba de Arafat (cheira a pó de talco Johnson"s, para bebés) e assiste a gritarias entre Liz Taylor e Richard Burton -, tudo sem nos sentirmos a espreitar pela fechadura. As memórias só deviam ser autorizadas a quem viveu, soube olhar, compreendeu e, enfim, sabe escrever.

O título português agarrou-se ao inglês, The Pigeon Tunnel, e não pretende dizer logo tudo na capa, como o título espanhol Volar en Círculos, voar em círculos. O Túnel de Pombos é mais substantivo e exprime melhor a metáfora que John le Carré conta no prefácio, curto, de meia página. Adolescente, o pai levou-o ao casino de Monte Carlo, onde havia túneis sob um relvado que era campo de tiro. Os pombos eram apanhados por armadilhas no telhado do casino. Depois, os pombos eram soltos nos túneis escuros e, procurando a luz, desembocavam no céu mediterrânico. Eram esperados por cavalheiros com espingardas. Às vezes o chumbo falhava, os pombos sobreviviam, mas voavam sempre para o seu habitat natural, voltavam ao telhado do casino. E às suas armadilhas.

Este círculo trágico é suficientemente comum para John le Carré chamar assim, de forma provisória, a todos os seus livros, The Pigeon Tunnel, para depois os mudar para outro título. É como em Guilin, no Sul da China, onde os pescadores levam corvos-marinhos nas barcas e lançam-nos ao rio Li quando há peixe. Não há perigo de os pássaros engolirem o peixe porque têm um laço que lhes aperta o pescoço. Aflitos, engasgados, regressam à barca, onde o pescador retira o peixe e o atira para um cesto, enquanto os corvos-marinhos agradecem ao seu explorador por lhes ter salvo a vida... E são lançados à água quando se anuncia novo cardume.

Não há notícia de grandes discussões filosóficas em Guilin sobre o paradoxal destino dos corvos-marinhos. E provavelmente nem muita gente se deu conta do seu próprio destino de pombo nos túneis de um qualquer casino. Pelos vistos, John le Carré percebeu-o, por isso dedicou todos os seus livros, de espionagem e intriga internacional, àquele título, embora acabando por o mudar - guardava-o para a sua própria história. No fim do prefácio, ele diz sobre os túneis dos pombos: "A razão exata por que esta imagem me assombra há tanto tempo é algo que talvez os leitores possam compreender melhor do que eu." Mentira, a generalidade dos leitores esperou que um escritor, um verdadeiro, como John le Carré, lhe chamasse a atenção para o que cada um viu, mas não viu.

Diz ele, pois: "(...) possam compreender melhor do que eu". Le Carré usa um tom autodepreciativo próprio de quem, tendo-se em boa conta e com razões para isso, nos quer iludir com a modéstia. É encantador darmos por um grande escritor a sublinhar os seus erros. Em 1974, foi a Hong Kong, já depois de escrever A Toupeira, mais um com o personagem George Smiley, o espião que o acompanhou durante anos e vários romances. Em Hong Kong, onde parte do romance se passa, deu-se conta de que "alguém tinha construído um túnel debaixo do mar entre a ilha (...) e o continente, sem meu conhecimento". Ele escrevera o livro na sua casa da Cornualha, no Sul da Inglaterra, usando um guia, afinal, caduco.

Correu ao hotel para mudar a asneira, mas o livro estava já impresso e a edição saiu gralhada. Depois desse episódio, recorreu ao seu mestre viajante para tirar uma lição. "Uma máxima de Graham Greene soava-me algures ao ouvido: se estávamos a relatar a dor humana, tínhamos o dever de partilhar." Ir, ver e contar... Linhas à frente, Le Carré lembra que ao passar por Saigão, no Vietname, escreveu a Greene dizendo-lhe que relera O Americano Tranquilo e o romance sobrevivera ao tempo. Recebeu a resposta já em Phnom Penh, no Camboja, na véspera de os comunistas Khmer Vermelho abrirem os campos da morte. Greene escreveu aconselhando-o a visitar o museu de Phnom Penh e o seu "chapéu de coco com penas de avestruz", dos reis antigos. Na carta de volta, Le Carré teve de dizer a Graham Greene que já não havia nenhum chapéu de coco nem museu.

Então, o que podem ser as memórias sobre factos tão passageiros? Na introdução que faz ao seu livro de histórias pessoais, Le Carré diz que um escritor, aos factos, matéria-prima bruta, deve "fazê-los cantar". Porque a verdade real reside não nos factos mas nas nuances. No melhor capítulo, que aparece tarde (é o 33), John le Carré - a assinatura literária, o verdadeiro nome é David Cornwell - fala de Ronnie Cornwell, "vigarista, fantasista, preso ocasional e meu pai". Aquele que batia na mãe, levando-a a abandonar a família, o viciado em crises e teatralidade e que deu cabo da vida de muita gente. E Le Carré cita de novo o mestre: "Graham Greene diz-nos que a infância é o saldo credor do escritor. Por essa medida, pelo menos, eu nasci milionário." Há pombos que escapam ao destino.

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