Marilyn cercada pelo desejo

Ele deixara no testamento este desejo: ser sepultado virado para baixo. E assim estava, virado para Marilyn e por cima dela, até à eternidade

Sempre gostei de inofensivos americanos malucos - e nem estou a dizê-lo para espicaçar o outro, que não é inofensivo. Um dia, entrei num cemitério de Los Angeles, no bairro de Westwood, com as paredes (se por estas não entendermos muros mas arranha-céus a delimitar o campo santo), dando para o Wilshire Boulevard que leva a Santa Mónica e ao pôr-do-sol. Entrei pelo parking de automóveis subterrâneo e fiquei a pensar que estacionava sob campas, e não pensava mal. Fui lá mais ou menos por razão igual à de Hugh Hefner, o falecido pai da revista Playboy e individualista benigno que hoje aqui saúdo. Ele foi, agora, ao cemitério de Westwood para ficar ao lado de Marilyn Monroe, e eu fui só pelo pedaço duma tarde, não para a eternidade.

Por falar em malucos, deixem-me esclarecer o lado benigno dessas visitas sepulcrais. Comecei novinho por culpa do sistema colonial de ensino. Coincidindo as férias grandes com o cacimbo - tão quente como por cá um fraco verão mas em todo o caso impedindo a praia - desde os oito, nove anos, descobri-me com tempo a mais. Dediquei-o a conhecer a minha cidade, Luanda. Ruas empedradas, guindastes do porto com sacos de café, beirais onde andorinhas faziam ninho, postes de iluminação seculares, sobrados da Cidade Alta, catos de candelabro e o velho branco de óculos grossos como cus de garrafa que me trocava e renovava as revistas de banda desenhada editadas no Brasil, sobre o mágico Mandrake ou cowboy Hopalong Cassidy (eu não sabia ainda que o texto dos balões eram inventados por um tal Nelson Rodrigues). Eu ia ler para os muralhas da fortaleza de São Miguel, com a minha pátria aos pés.

Com uma assiduidade nunca inferior a duas vezes por semana, em tempo de cacimbo eu entrava no cemitério do Alto da Cruzes, mais conhecido por "o cemitério velho". E fazia lá o mesmo de quando entrava por um portão de sobrado do séc. XVIII, sentir os degraus de madeira velha marcada por manchas de carvão que caíram de fogareiros e herdeira do cheiro eterno de um qualquer prato onde havia dendém. O que eu fazia no cemitério e na cidade era confirmar que eu era antigo. Desde novinho, senti a falta de ser antigo.

Em outras cidades onde vivi, Paris, por exemplo, quis conhecê-las também pelas campas. Às vezes, em ocasiões públicas, até de multidão, como na celebração do centenário da Comuna, em maio de 1971, que valeu pela grandiosidade, frente ao Muro do Federados, no Père Lachaise, onde tantos communards foram fuzilados e se gritou "a Comuna não está morta", paradoxais palavras para usar num cemitério.

Depois disso, muitas visitas, solitárias, e no Père Lachaise reencontro sempre a minha raça: da simplicidade do túmulo de Molière, onde nem se sabe se os ossos são os dele, ao mausoléu imponente da condessa russa Alexandrovna Strogonoff, de quem nem sei se era parente do bife. No cemitério de Montparnasse, nunca fui ao túmulo do desenhador Siné desde que ele morreu, no ano passado. Em compensação, já o visitara antes, com o seu estranho cato de bronze em forma de dedo a fazer um gesto feio e o epitáfio: "Morrer? Antes rebentar!", que esteve meia dúzia de anos à espera que o caricaturista viesse habitá-lo de vez.

Então, daquela vez em Los Angeles, fui ao pequeno cemitério cercado de prédios como um logradouro. Ali, aquele meio campo de futebol mais parecia o Teatro Dolby em noite de entrega de Óscares. Numa pequena placa de bronze pousada no chão, de Natalie Wood assinalava-se "Natalie Wood Wagner", intrusivo acrescento do nome do marido. Ora, ela caiu ao mar numa noite de iate em que não ficou claro o papel de Robert Wagner. Em todo o caso, aquela que foi a tristeza de revisitar o esplendor da relva e se deu conta (e nos deu) que o passado foi e nunca mais é, merecia a identidade única que ela foi. E Jack Lemmon e Burt Lancaster, Dean Martin e o produtor Darryl F. Zannuck, as irmãs Eva e Zsa Zsa Gabor (se trouxessem os maridos que tiveram, o cemitério rebentava pelas costuras), os escritores Truman Capote e Ray Bradbury...

Eu tinha lá ido por causa de Karl Malden, que o sabia lá, mas não aos outros. Ia nem tanto pelos filmes, Há Lodo no Cais, Um Elétrico Chamado Desejo, O Homem de Alcatraz (continuaria com Burt Lancaster, no cemitério, a discussão que iniciaram na prisão?), Patton..., sempre gostei dos grandes atores secundários. Mas eu estava ali por causa de uma lenda. Karl Malden nascera Sekulovic, nome do pai sérvio, operário e imigrado. Em nome da carreira mudou o patronímico, mas sabia quanto isso ofendera o pai. Então, desde que Há Lodo no Cais lhe dera fama, Karl Malden punha no contrato a obrigação de alguém aparecer a dizer no filme o nome da família, nem que fosse em breve deixa: "Sekulovic"... Mas a pedra negra do túmulo, em Westwood, achava que o tributo estava pago e dizia em letras douradas: "Karl Malden", e só.

Foi depois disso que encontrei, numa parede de cripta, em mármore rosa contrastando com os outros cinzentos, e com um vaso mais cheio de flores, o anúncio extraordinário de uma placa metálica: "Marilyn Monroe, 1926-1962". A 30 metros, um homem de uma janela de escritórios escrevia no computador. Quantos olhares, por dia, deitaria à vizinha do lado, que já não pecava? No jazigo de cima, estava Richard Poncher, falecido em 1986, aos 81 anos. Ele deixara no testamento este desejo: ser sepultado virado para baixo. E assim estava, virado para Marilyn e por cima dela, até à eternidade. E ainda lá está, apesar da viúva ter tentado vender, em leilão e em vão, o lugar privilegiado.

Na altura do leilão, Hugh Hefner, comprou a cripta à esquerda de Marilyn. O homem de tantas loiras, que publicou a deusa na primeira capa da Playboy, teve a compostura, ou consciência dos 91 anos de ambos, para escolher um lugar mais casto. Não sei se o homem do computador ainda trabalha no escritório vizinho e, se trabalha, inveja Hefner.

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