Marcelo voltou aos assobios queridos

Há dias, a convite de Fátima Roque, participei no lançamento do seu novo livro, Uma Década de África. No debate, não pude deixar de falar do prefácio, das quatro extraordinárias páginas de Adriano Moreira. A abrir, ele lembrou um facto necessário para se saber do que se fala quando se fala de África.

O facto é quase a toda África ter feito parte "do mundo submetido ao regime de colonização, cujos centros de governo estavam todos no Ocidente". Territórios e povos governados longe, por outros e, inevitavelmente, quase sempre contra os seus interesses. Não citei Adriano Moreira por o achar insuspeito já que, ontem, foi ministro do Ultramar e é sempre consolador citar adversários. Citei-o por ele ser um sábio e é preciso prestar a atenção devida aos nossos raros sábios. Ajuda-nos a entender o noticiário.

Em setembro de 2017, a maioria dos jornais portugueses ficou enxofrada por João Lourenço, na sua tomada de posse como presidente angolano, não ter posto Portugal na lista dos parceiros prioritários. Por não darmos devida atenção a quem sabe - a Adriano Moreira, por exemplo -, não percebemos o que se passara naquela cerimónia. No discurso, João Lourenço não nos pôs entre os parceiros importantes (e citou 12 países!) porque Angola tinha um contencioso político grave com Portugal.

Manuel Vicente, um ex-vice-presidente angolano, tinha sido apanhado numa armadilha que, meses depois, tribunais portugueses haveriam de reconhecer ao condenar o magistrado português que beneficiou com tal tramoia. Por ter caído na armadilha, Vicente podia ser julgado cá ou no seu país, é talvez uma bela discussão jurídica. Sim? Não? Sei lá... Sei lá, posso dizer eu - um cidadão comum. Esse (eu ou o leitor) podia ficar-se pela discussão jurídica. Mas o Estado português tinha de ter em conta a questão política.

Belém tinha, São Bento tinha e tinha a generalidade dos políticos portugueses, todos tinham a convicção de que a questão era política. Porque, como lembrou João Lourenço, nesta semana, na entrevista à RTP, havia um acordo de Portugal e Angola, através da CPLP. Porque o caso se baseava na armadilha venal de um importante procurador-geral português contra um ex-presidente angolano. E, enfim, porque as relações luso-angolanas não podem esquecer nunca, como ensina Adriano Moreira, que Angola foi submetida ao regime de colonização, cujo centro de governo estava em Portugal. Isto é, Angola, povo e território, fora governada por Portugal sem ser ouvida durante séculos, isso marca e isso tem de ser sempre tido em conta.

Não, não, ter sido colonizada, nas relações dos dois países, não desculpa tudo a Angola. Mas Portugal tem de ver essas relações sempre à luz de que a colonização não foi mera circunstância. A minha opinião e a do leitor podem ser o que bem entendermos. Já o Estado português - e nele está o Ministério Público - não podia ignorar a natureza melindrosa das relações com Angola. Exigia-se um cuidado que faltou a quem do Ministério Público só interpretou (e de forma duvidosa) por critérios jurídicos. Exigia-se esse cuidado quando "o caso Manuel Vicente" estava inquinado pela ação criminosa (assim o consideraram tribunais portugueses) de um membro importante da cúpula do Ministério Público, um procurador-geral, agora condenado.

E foi por isso que João Lourenço, no tal já antigo discurso, falou de um, de quatro, de 12 países, e tendo chegado a nomear a Coreia do Sul, encerrou a lista e não falou de Portugal. De forma firme, Angola dizia que havia um caso político a ser resolvido com Portugal. E, felizmente, foi resolvido. Os ignorantes aprenderam, infelizmente à custa de se adiar durante meses o interesse de Portugal, que no Estado português - aquele que trata da nossa diplomacia, da economia, da defesa e, também (essa foi a novidade) da justiça portuguesa -, no Estado português, pois, ninguém está acima do interesse de Portugal.

Felizmente, houve uma confluência de políticos portugueses e angolanos, no poder e na oposição, em ambos os países, para ultrapassar o irritante incidente causado por quem não sabia. Mas, atenção, não saber é um desporto nacional. Naquele dia, setembro de 2017, em que Portugal, porque alguns magistrados o defendiam mal, soube que ficou a perder, naquele dia, também pareceu ter acontecido outra derrota: a maioria dos jornais portugueses anunciaram que Marcelo foi apupado pelos luandenses. Foi mesmo?...

Assobiaram-no, titulou-se por cá. E era verdade, assobiaram-no. Isto é, quando os altifalantes anunciaram o nome do Presidente português, irromperam assobios: o povo que assistia à cerimónia saudava à sua maneira, quente e fraterna, o Ti Celito - o mais querido dos hóspedes estrangeiros. Em vez de apupar, aqueles assobios eram um triunfo. Porque falar de sentimentos dos luandenses quando tão pouco se sabe dos luandenses?

Ontem, Marcelo voltou à praia do Bispo, ao mesmo sítio onde houve a cerimónia de tomada de posse e o discurso em que Portugal não foi mencionado. Ontem, Ti Celito, mal aterrou, foi ter com os luandenses que assistiam ao cortejo de Carnaval. Horas depois, Marcelo foi à festa de anos do amigo João Lourenço. E a partir de hoje o Presidente de Portugal vai por Angola fora numa visita de Estado. São vários planos de luta do aprender. Do saber contra a ignorância. Bons portugueses têm bons aliados angolanos para essa causa.

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