Ler é saber mais

Ontem apresentei um livro na Feira do Livro, a de Lisboa. A autora, conheci-a também ontem. Conhecer de mão estendida, "olá, Catarina Gomes!", porque de ler, admiro-a há já tempos. O livro chama-se Furriel não É Nome de Pai (editora Tinta-da-China). Gosto de capas que dizem ao que vêm. Então, é um livro-documentário sobre os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial, os "filhos do vento", os "filhos dos tugas", enfim, filhos de relações ocasionais, mas não só, e que por lá ficaram. Abandonados, porque a vida às vezes é assim. A Catarina Gomes anda há quatro anos enfeitiçada pelo drama, foi à Guiné e a Angola e, por cá, falou com prováveis progenitores. Por favor, leiam o livro: as histórias são contadas com o pudor que nos ajuda a aguentar a dureza da matéria. Depois, há isto: a Catarina escreve tão bem ... Esta história é cheia de História, e dos seus ventos que varrem e ferem, e a jornalista dá o contexto. Entre a dor, há páginas luminosas como as que contam António e Esperança, nas anharas do leste de Angola. Há mais de 40 anos, o soldado alentejano conheceu a filha do camponês angolano. Viveram na mesma cubata, de chão cimentado por ele, ao lado do quartel do Luso (hoje Luena) - veio 1974 e os acontecimentos separaram-nos. Ela estava grávida, chegou a independência e, logo, a guerra civil. António voltou ao Luena, 40 anos depois, para ver o filho e os netos que teve dele - já a Esperança tinha morrido. O que lhes sucedera? Esta semana, um elegante cronista deste meu jornal, o João Lopes, ofereceu-me um seu livrinho, também de título límpido: Cinema e História. A abrir, ele fala de um dos mais intensos diálogos em filme. Duas palavras. No E.T., ao regressar à sua galáxia, o extraterrestre implora ao amiguinho Elliot: "Vem..." E o rapazinho pede-lhe: "Fica..." Mas. Mas, ponto - foi o que escrevi. É que a vida é assim. Felizmente, dois jornalistas ensinam-me a percebê-la.

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