Vindos do Velho para seguir no Novo Ano

António Costa - é uma espécie de marqueteiro brasileiro, mas ao contrário. Faz más campanhas eleitorais, mas é como se estivesse, de propósito, a fazer asneiras até à votação, para, no dia seguinte, mostrar que é o melhor construtor de pontes políticas do mercado. Se ser marqueteiro é efémero, já Costa fica por cá a tentar provar que o que ontem era impossível, afinal, faz-se. Entre outras coisas, Costa pôs os portugueses, sempre fartos de eleições, curiosos sobre as próximas legislativas. Primeiro, para saber se Costa volta a colar cartazes suicidas e, a estender, em plena campanha e sem guitarras à volta, um microfone a desbocados umbiguistas como Carlos do Carmo. Segundo, para confirmar se os aliados atuais ainda estão dispostos a sair da cartola. Mas, embora seja natural a curiosidade dos portugueses, António Costa, o mau candidato e o bom político (e por estas duas razões), tem interesse em empurrar a próxima campanha para, pelo menos, para lá de 2016. O próximo ano vai valer pelo conseguir, ou não, acabar em alianças como começou.

Justiça/Sócrates - dizia-se que este era o ano em que ou se provava alguma coisa contra o ex-primeiro-ministro ou se provava que certos magistrados foram irresponsáveis. Errado. Essa alternativa, "ou, ou", foi derrotada. Nesta matéria, 2015 não foi adversativo, foi o ano da copulativa "e"! Sócrates suicidou-se como político "e" magistrados desonraram-se como defensores da lei. Cada entrevista de José Sócrates desautorizou-o como político, por causa do tipo de relação, revelado pelas suas próprias palavras, que ele tinha com o dinheiro de um amigo com negócios com o Estado; "e" cada capa dos jornais com fugas de informação desautorizou a investigação. Essa copulativa que os acasalou, Justiça/Sócrates, pariu um manto turvo sobre a sociedade. Note-se, ainda, que não se fala aqui do processo, porque desconhecemos, todos, tudo. Fala-se das palavras públicas de Sócrates e dos métodos manhosos da investigação. Ambos exemplificando factos lamentáveis, qualquer que seja o desfecho judicial. Acresce em ambos uma deslealdade: de Sócrates com o seu partido e a dos magistrados com a lei. Como se o poder de um e de outros não viesse exclusivamente daquilo que eles abusam.

Conselho de Estado - um órgão institucional tão desconhecido que até o atual Presidente o ignorou quando o país esteve confrontado com os mais polémicos dias pós-eleitorais da nossa democracia. Notável esquecimento, quando o CE serve para aconselhar o Presidente... Mas, a verdade, é que ele tem servido para armazenar individualidades que foram e já não são. Desta vez, a remodelação de 5 membros merece alguma atenção. Sendo um lugar de senadores, próprio de pessoas com experiência, a eleição de Adriano Moreira é notável. Os seus 92 anos são o menor dos argumentos para garantir o que ele tem para dar conselhos. Adriano Moreira não pertencer ao CE (onde, por exemplo, estava Luís Filipe Menezes) diz muito sobre o que somos, casa de pobres que desperdiçam. A cultura e inteligência de Francisco Louçã também justificam a sua eleição. Com esta ironia que deve ser lembrada: Louçã vai para o CE sem ter ainda declarado de forma pública e clara que não se importa de ser um conselheiro do Estado burguês.

Efeito Marcelo - lembram-se como estava Portugal no início de setembro? Já há meses completamente devotado à campanha eleitoral das legislativas, que, no entanto, só abriria a 20. As presidenciais são daqui a um mês, alguma coisa fervilha pelo país fora? Pois é, a silêncios destes chama-se efeito Marcelo. Exagero, claro, porque a ausência dos outros dois pesos-pesados presidenciáveis, Durão Barroso e António Guterres, também contou para ensurdecer o atual silêncio. Sendo assim, os sub à direita deram parte de fraco por causa de Marcelo Rebelo de Sousa e os sub à esquerda cresceram como cogumelos na ilusão da segunda volta. Aquela reação diz muito sobre a energia da classe política à direita e a da esquerda diz alguma coisa sobre o cimento das suas convicções. Duma e doutra, da ausência (PSD e CDS) e da variedade (de toda a esquerda), há que dizer que tiveram azar com o adversário - que já construiu na opinião pública a ideia de ser o candidato. O. Da visita, já longínqua, à Festa do Avante, à ida ao lançamento de mais um tomo da biografia de Cunhal, de Pacheco Pereira, Marcelo caça à unha na esquerda, tendo a certeza de que já arrebanhou a direita. Pelo caminho ainda aproveita para surfar a sua superioridade sobre aquele que vai substituir. E é tão fácil ganhar na comparação quando se é comunicativo, interessante, interessado... Mas Marcelo, que gosta de mergulhar no popular, sabe que os livros de provérbios estão cheios de avisos contra as certezas precipitadas.

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