Sobre o amor na melhor revista de economia

Quando a revista The Economist faz capa sobre o amor moderno talvez seja altura de reconhecer que se está irremediavelmente em agosto. Fui ao calendário: sim, vamos a meados do mês. Mas reparo, de seguida, que o calendário era o do telemóvel. Tudo a ver: os encontros amorosos em The Economist são também os da era digital, engates dedilhando. Eu dedilho para saber a data, a revista escreve sobre como se chega ao dating (namoro) dedilhando data (dados e informação processada).

Quando o jornalismo é bom, qualquer assunto é bom até em meados de agosto. O que é bom jornalismo? Desde logo, antes mesmo do que há para dizer, cuidar do como dizer. A capa de The Economist é uma pintura de Edward Hopper feita exclusivamente para a revista. Impossível, a revista saiu ontem e o pintor morreu há quase meio século... Bom, a capa não é bem de Hopper, é uma estilização do quadro dele mais conhecido, aquele Noctívagos (o pintor chamou-lhe Corujas).

Um bar espreitado de fora através da montra, à noite, talvez madrugada porque ninguém passeia. Lá dentro, um balcão de cerejeira, um empregado loiro com quépi branco que os leitores de banda desenhada antiga reconhecem nos barmen americanos, e três clientes. Uma ruiva de vestido vermelho e manga curta, acompanhada por um homem magro de chapéu de aba rebatida para os olhos e, afastado e sozinho, na esquina arredondada do balcão, outro homem, de costas e também de chapéu.

O mais claro do quadro é feito pela luz projetada no passeio. A casa da frente tem pequenos tijolos vermelhos. Uma tabuleta sobre a montra anuncia charutos Phillies a 5 cêntimos a unidade. Nenhum dos quatro personagens se encara. O quadro é sobre a solidão.

Exatamente por isso The Economist se inspirou nele para fazer a sua capa estilizada. Desta vez, o bar é um iPad, um smartphone, um qualquer telemóvel ou tablet... Enfim, um objeto de comunicar e andar com ele. Dentro do aparelho (no que seria o ecrã negro), está o barman, ausente, na mesma posição de no Noctívagos (para que se saiba a alusão é clara). Clientes, desta vez, só dois, para simplificar a ideia. O par está sentado frente a frente, mas solitários, afastados pelo balcão corrido que cerca o bar (o ecrã). Ele com o telemóvel pousado e ela também, talvez, embora o seu não se veja.

O homem e a mulher têm meios de se comunicar - bastaria um deles piscar o olho, acenar ou simplesmente dizer "olá!", como os do quadro de 1942. E agora, em 2018, os personagens têm ainda outro meio de comunicar - através da internet, como ilustra o assunto e o desenho da capa da revista, "Modern love". E, no entanto, a solidão das três personagens modernas da The Economist é tão pungente como as dos quatro figurantes de Hopper.

Solidão à parte, a revista marcou um ponto importante para quem vende comunicação: tornou o seu assunto interessante a quem lê. Eu fui ler. Soube que na aplicação chinesa Tantan para encontros os homens consideram interessantes 60 por cento das mulheres contactadas. Mas, adianta, "as mulheres estão interessadas em apenas 6% dos homens." Oh, oh, estou a ver um discípulo de Edward Hopper a pintar um bar de madrugada, no Bund de Xangai, cheio de chineses desolados a olhar para o seu smartphone silencioso...

Seja como for, encontrar parceiro dedilhando veio para ficar. Nos Estados Unidos, 70 por cento dos casais gays encontram o seu companheiro online. E, diz a The Economist, vai em mais de 20 % a curva ascendente dos namoros que começaram online. E ela vai cruzar-se, em breve, com a curva descendente dos namoros desabrochados da forma até agora mais tradicional, entre amigos (já menos de 30 por cento).

O anelar que pretendia levar o símbolo do relacionamento amoroso é dedo a perder a sua importância para os polegares com que os utilizadores teclam a procura de namoro e do resto. Não sem razão, o polegar é o mais solitário dos dedos numa mão. Edward Hopper era um visionário: nos 13 dedos que pintou, dos seus quatro personagens, o mais ensombreado é o do único polegar.

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